30 jun/14

Blue Valentine - Crítica de Filme

postado por Mateus Barbassa

“Quantas conversas, quantas risadas, quantas brincadeiras… E olha só, hoje nem nos falamos mais.”
 


“Blue Valentine” do diretor Derek Cianfrance é uma poderosa análise das relações humanísticas. Sim. É um filme dolorido. Cruel. Forte. É um filme salomônico, espiral. Quando conhecemos Dean e Cindy, eles já estão casados. Já têm uma filha. Já estão meio infelizes. A primeira cena mostra uma garotinha procurando um cachorro. Logo ficamos sabendo que o cachorro sumiu. E mais tarde que o cachorro morreu. Sim. Maus presságios. A morte do cachorro significa que algo ruirá. Assim como nas clássicas tragédias gregas. É interessante notar a maneira especial com que o diretor trata as cenas que se passam na estrada. Ali é um lugar de perigo. De alerta. Mas também de abertura de possibilidades. O filme começa e termina mostrando uma estrada. Sim. O que o diretor pretende com isso? Simples. A própria vida é essa estrada. Muitas outras cenas se passam ali. Em trânsito. Lembrei de uma passagem de um poema do Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa):
 
“Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a ação humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.”
 


Creio ser uma perfeita definição para o uso recorrente desses personagens em trânsito.
Dean e Cindy são tipos diferentes. Ele, todo relaxadão. Ela, tensa, insegura. Suas histórias de vida só reforçam essa diferença. Ele foi abandonado pela mãe quando criança. Ela tem um pai tirano e uma mãe omissa. Sim. Freud explica. Esse aspecto psicanalítico está impresso no filme. De alguma maneira, Cindy busca em seus relacionamentos a reprodução tirânica de seu pai. Fato explícito numa cena em que ela “pede” para ser quase estuprada. Já Dean, sua sina é ser constantemente abandonado.
 
"- Sabe qual é o seu problema? Você não deixa as pessoas com gostinho de quero mais.
- Como assim?
- Você distribui doce todo dia. Isso enjoa!"
 
Essa frase do Caio Fernando Abreu é a mais pura definição de Dean. Sim. Ele é carente. Mas é também bom pai e ama desmedidamente Cindy. Mas acaba por sufocá-la. Afinal, ela não está acostumada a ser amada. E quantos de nós estamos? Essa pergunta martela minha cabeça. Assistir “Blue Valentine” é isso. É perceber certas coisas que gostaríamos de esquecer. Sim. Não é fácil assistir o fim de algo tão bonito. Não consigo aceitar que as coisas acabem dessa maneira. É tão triste. Mas somos assim. O ser humano é assim. Parece fadado ao erro. Triste constatação. “Blue Valentine” me lembra um outro filme que aparentemente não tem nada a ver com ele: “Onde vivem os monstros” do Spike Jonze. Também ali há o fim de algo sublime. Também ali dói. Também ali há a metáfora do caminho.
 


“Tudo é ilusão, tudo é só estrada que corre e corre, e todas as estradas vão para o mesmo lugar. Que as paisagens dessa estrada sejam belas, então.”
 
Sim. Novamente Ele: Caio Fernando Abreu. Sim.
 
“Blue Valentine” possui um roteiro simples, mas eficiente. O filme não se perde em explicações tolas, não tenta forçar uma resposta para o término do relacionamento de Dean e Cindy. E isso é um dos muitos aspectos positivos. Não é justamente assim na vida real? Quase nunca temos uma explicação palpável para o fim das coisas. Muito pelo contrário. Na maioria das vezes, só sobra a perplexidade de não se entender direito aquilo que se sente. Humano. Tão demasiado Humano.
 
“Uma pressa, uma urgência. E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça.”
 
Por que sempre fazemos isso? Do que temos tanto medo?
 
Creio que uma possível resposta esteja em nossa educação. Não. Não somos criados para o amor. E quando digo amor não é só esse existente entre os apaixonados. Mas todo e qualquer sentimento bom que nutrimos pelos outros, seja família, amigos, etc.
Não é a nossa. O amor em nossa sociedade é uma obrigação. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” “Amai Deus sobre todas as coisas”. E assim caminhamos nessa estrada, que não é nem feliz, nem infeliz. É morna apenas. É incompleta apenas. Lacan dizia que a gente sofre, porque não tem para onde voltar. Concordo com ele. Não sabemos nada de nada. Somos uns perdidos. Uns entregues a própria sorte. E cada um que faça o seu. O amor em nossa sociedade se transformou numa mercadoria. Brecht estava certo. “Como posso ser boa se tenho que pagar o aluguel?” Eis ai a grande contradição de nossos tempos. Aliás, falando em Brecht, é dele uma das melhores definições sobre o amor:
 
“O amor é a arte de criar algo com a ajuda da capacidade do outro.”


 
E é exatamente esse o ponto que pega em “Blue Valentine”. Cindy não suporta ser ajudada. Já Dean é legal com todo o mundo. Cindy é inverno. Dean é verão. Juntos produzem grandes tempestades. No começo é aquela chuva redentora, que molha a terra e faz brotar os alimentos. No final é aquela chuva que só provoca o caos.
 
“Eram bonitos juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro, e vice-versa. Como se houvesse entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.”
 
No começo do namoro de Dean e Cindy essa frase de Caio Fernando Abreu é real. Eles são lindos juntos. Eles se divertem. Parecem até mesmo se completar. Mas com o passar do tempo, algo desanda. O quê então? Para mim, creio ser um misto de coisas. Resquícios de infância, imaturidade dos personagens, egoísmo, o modo capitalista como a sociedade se organiza. O mundo de Cindy e Dean acaba de ruir quando ela está comprando bebidas num supermercado e reencontra o namorado da adolescência. Sim. Cindy inevitavelmente faz a comparação entre Bob e Dean. E nessa comparação o marido sai perdendo. Bob é lindo, bem sucedido e lhe passa uma cantada. Dean é a imagem do “loser”. A visão de Bob a perturba. Ela vê que fez uma “escolha errada”. Ela deveria ter escolhido Bob. Ele sim era o marido ideal para ela. Fato este que corrobora para a tese de Dean:
 
“Eu acho que os homens são mais românticos do que as mulheres. Quando nos casamos é com uma garota. Nós resistimos o tempo todo até conhecermos uma garota e pensamos: eu seria idiota se não casasse com ela. Mas as garotas só escolhem a melhor opção. Esperam sempre pelo príncipe encantado, e então casam com o cara que tem um bom emprego.”
 
Essa cena do encontro entre Cindy e o ex-namorado deflagra o fim do relacionamento dela com o marido. “Por que você não faz nada da vida?” pergunta ela. De certa forma os conselhos de sua avó de “Faça com que a pessoa por quem você se apaixone valha a pena pra você” é confrontado. “Como confiar em seus sentimentos quando eles desaparecem?”, essa é a dúvida de Cindy.
 
Sim. Esse é o ponto.
 
O diretor Derek Cianfrance escreveu esse roteiro para tentar responder essa pergunta. Seus pais se separaram quando ele tinha 21 anos de idade e seu  roteiro é uma tentativa de compreender o que levou seus pais a se separarem. Outro fato interessante de “Blue Valentine” é que o diretor não deixou que Ryan Gosling e Michelle Williams se conhecessem antes das filmagens. Não. Os dois atores só se conheceram já no set. As gravações começaram pelo início do namoro. Gravada essa parte do filme, Derek confinou Michelle, Ryan e a atriz que interpreta a filha deles numa casa real durante um mês. Feito esse laboratório das vivências de um casal, o diretor filmou a separação. Creio que esses detalhes dão a riqueza emocional desse filme. Tudo isso fica impresso em seu resultado final. Michelle Williams e Ryan Gosling demonstram uma incrível maturidade artística nesse filme. O frescor da juventude, da paixão e o lento processo de desintegração disso tudo é vivenciado pelos dois com extrema coragem e talento. O que assistimos não é um filme, mas um desabrochar de intimidades. O trabalho desses dois é de cair o queixo, de aplaudir de pé, de gritar “bravo” no final. O diretor Derek Cianfrance consegue em seu primeiro trabalho construir o clima certeiro em todas as cenas. É impressionante. Nada falta. Nada sobra. A direção dos atores e o tratamento das imagens são o ponto alto desse jovem diretor. A iluminação e a trilha sonora do grupo Grizzly Bear é linda e inspirada. Outras duas músicas também ganham destaque no filme, uma delas inclusive é cantada pelo próprio ator Ryan Gosling, já a outra de nome “You and Me” (cantada pelo grupo “Penny & The Quartets”) é usada como tema do casal. Aliás, essa canção é utilizada duas vezes no filme e impressiona a sensibilidade do diretor no tratamento dado a cada uma delas. É genial e dolorido. Demais.
 
Enfim, “Blue Valentine” é um daqueles raros filmes que tratam de relacionamentos de maneira adulta, sem os maneirismos do gênero.
 
“Blue Valentine” não é um filme. É um soco em plena boca do estômago. “Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom.” Sim, Clarice Lispector estava certa: “a vida é um soco no estômago.” Sim.



 Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema.
Ah, e farofeiro também.

27 jun/14

HQ da Semana - Copa Cultural

postado por Diogo Branco

Muitos eventos culturais estão acontecendo na cidade de Ribeirão Preto.
Um deles, o Copa Cultural, tem como objetivo mostrar um pouco da cultura brasileira aos franceses que estão hospedados na cidade.
O cartunista Arnaldo Junior presenteia o nosso farofeiro Diogo Branco, que foi uma das atrações deste evento:

26 jun/14

Música: Livre, plena e sem registro na OMB!

postado por Diogo Branco

Matutando ainda sobre o tema destaque da categoria musical do site nesta semana, resolvi destacar um principal.
A ênfase aqui poderia ser dada ao meu ídolo Gilberto Gil, que comemora hoje seus 72 anos ( o tempo permite cada vez mais a louvação de seu talento na música).Tendo a Bahia lhe dado régua e compasso, o músico mostrou bem cedo a que veio, e a gente agradece.


Poderia também, este que vos escreve, destacar o vídeo feito por Paul Mc Cartney aos seus fãs, depois de pegar uma forte infecção viral e cancelar uma série de shows. No vídeo, Paul avisa " Todo mundo está me perguntando como estou me sentindo.Eu me sinto ótimo, muito obrigado por perguntar".


Pensei, ainda, em publicar algo sobre os 5 anos de morte do Michael Jackson ( e comentar todas as homenagens que o astro teve durante a semana, como a visita de inúmeros sósias ao seu túmulo, na Califórnia) ,ou sobre o tão aguardado lançamento do CD de Adelle, batizado supostamente de "25", numérico e associado à sua fase de vida, como os demais álbuns da cantora.



Apesar do aniversário do meu mestre Gilberto Gil, apesar do vídeo do idolatrado Paul McCartney, apesar de Michael e Adelle, a notícia da semana, sob o olhar de um músico, foi outra: O pronunciamento do Supremo Tribunal Federal a respeito da obrigatoriedade do registro de um músico na Ordem dos Músicos, criada com o intuito de "preservar, fiscalizar e regulamentar a profissão de músico no Brasil". Me lembro de quando eu fiquei sabendo que todo "profissional" da área deveria se inscrever na OMB, fazer provas de qualificação, retirar uma carteirinha profissional, e pagar uma taxa anual para estar exercendo legalmente sua profissão. Demorei a crer que todos os meus amigos músicos, inclusive aqueles que enfrentam situações de vida extremamente complicadas, deveriam tirar todo ano uma bela quantidade de dinheiro do bolso para exercer uma arte, teoricamente tão livre quanto todas as suas demais esferas.
Essa anuidade era exigida por muitos contratantes,  e a decisão do STF veio como um alívio. 



Entre comemorações e discussões, fica decidido (e reafirmado sob as palavras da ministra Ellen Gracie) que "A música é algo sublime, e qualquer restrição a essa liberdade (profissional) só se justifica se houver necessidade de proteção do interesse público, por exemplo, pelo mau exercício das atividades para as quais seja necessário um conhecimento específico altamente técnico(...)"
"Sobreviventes" da música, como são chamados os profissionais que lutam diariamente para mostrar que o trabalho de músico, apesar de prazeroso, não é fácil como pode aparentar, comemoram agora essa notícia. Que a música seja sempre tão plena como demonstra ser no discurso citado acima, e que seu principal objetivo de tocar a alma de seus amantes e embalar nossas vidas como verdadeiras trilhas sonoras, consiga sempre prevalecer.


Diogo Branco
Músico, cronista e farofeiro.
Diogo Branco



25 jun/14

Penne de arroz ao molho de gorgonzola com abobrinha e damascos frescos

postado por Andrea Tchu



Como minha vida anda muito corrida, acabo optando por uma massa que seja leve, de preparo rápido e saborosa.

Gosto muito de utilizar a massa alimentícia de arroz. Essa massa não contém glúten, podendo ser consumida por pessoas que necessitam de dietas especiais. O sabor, a consistência e o cozimento são os mesmos das massas tradicionais. A principal vantagem é que ela fornece energia ao organismo de forma mais gradual e, EM QUANTIDADES IDEAIS, evita o aumento de peso. 

A receita:

INGREDIENTES (para 4 pessoas)


150g de queijo gorgonzola - 100g se for roquefort
1 xic de creme de leite
2 col sopa manteiga
sal, pimenta do reino e noz moscada ralada
250g penne
1 dente de alho
100g damasco seco
1 xic de abobrinha cortada em cubinhos

PREPARO

Coloque uns 2,5 litros de água para ferver. Após a fervura, adicione o macarrão e um pouco de sal. Mexa rapidamente e deixe cozinhar.
Em uma outra panela cozinhe a abobrinha por uns 5 minutos com um pouquinho de sal na água.
Enquanto isso, parta o dente de alho (não precisa descascar) no meio e esfregue os dois lados numa panela pequena (descarte o alho).
Coloque o queijo, a manteiga e o creme de leite na panela e mexa com o fogo baixo até o queijo derreter completamente. Tempere com o sal, a pimenta e a noz moscada (uma pitada pequena de cada), corte os damascos em 6, mais ou menos, com uma tesoura ou algo do tipo e jogue na panela, misturando. Eu corto os damascos já em cima da panela, para facilitar. Escorra a abobrinha e adicione ao molho. Se achar que o molho ficou muito "grosso", adicione um pouco de água e mexa bem. 
Pronto! Monte seu prato e bon apetit.


Andréa Bouchardet (ou "Tchu", como é chamada pelos amigos) é apaixonada pelas artes culinárias.
Cursou Gastronomia, e resolveu rechear seu cardápio de receitar fáceis e nutritivas.
Acesse o blog http://www.paladarfit.blogspot.com.br e conheça outras deliciosas receitas recomendadas por ela.

24 jun/14

Bolha Mental - Juliana Sfair

postado por Juliana Sfair

Fugi, essa foi a primeira palavra que veio a minha mente para iniciar o texto.
Era preciso o desligamento de toda a ansiedade e expectativa criadas no decorrer dos anos, meses, dias. Era preciso sair, encontrar alternativas para alcançar uma nova fonte de energia.
Energia limpa, dócil, leve.
Encostar os pés na água limpa, respirar um mundo novo. Toda a consciência corporal para alinhar pensamentos.
Uma nuvem tinha o formato de flecha no céu, uma seta indicando possíveis destinos e era naquela vibração que eu queria ficar.
Tudo silenciava, mas algumas vozes distantes ainda chegavam. Não me importava, eu havia criado uma bolha mental. Eu sempre criei outros mundos, outras formas de interagir com o Universo e sua força.
 
Fugir, fugir do que não te impulsiona. É essa a meta, a linha da plenitude agora.
 
 
[ Juliana Sfair ]

23 jun/14

Drive - Crítica de Filme

postado por Mateus Barbassa


"DRIVE" do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn é um dos melhores filmes que vi nos últimos anos.

Genial. Matemático. Violento. Tenso.
É um filme híbrido. Um mix de referências que resultam em algo único e absolutamente brilhante. Estão ali David Lynch, Gaspar Noé, Wong Kar-Wai, Chan-wook Park e Quentin Tarantino.

Lynch surge na atmosfera feérica de Los Angeles e na trilha sonora. Gaspar Noé e Chan-wook Park, no modo de filmar a violência explícita do filme. Wong Kar-Wai, na câmera lenta e no desabrochar da paixão. Tarantino, pela ironia perversa.

Mas não se enganem. Apesar de todas essas possíveis referências, “Drive” é um filme único. E o diretor Nicolas Winding Refn beira a genialidade.



“Drive” conta a história de um homem que dirige carros em cenas de alta periculosidade em filmes de ação. Esse mesmo homem também participa de assaltos.

A cena inicial mostra esse homem em ação. Durante exatos nove minutos, acompanhamos uma espécie de prólogo auto-explicativo do personagem e do próprio filme. Palavras ou diálogos pouquíssimos. O que segura a cena é a entrelinha, o subtexto. O que está por baixo e além da cena.

“Diga a hora e o lugar, e te dou um tempo de 5 minutos. Haja o que houver nesses 5 minutos, estou à disposição. Seja o que for. Mas o que houver após esses 5 minutos, você está por sua conta”.

“Drive” é um filme em camadas. Como já disse é um filme híbrido. Ele começa com um filme de ação. Vira um filme policial. Ganha contornos românticos quando o motorista conhece e se apaixona por sua vizinha. Torna-se um drama familiar quando o marido dela que estava preso volta (de surpresa) para a casa. A partir daí, um drama psicológico, para logo depois, virar um filme de máfia e terminar como um filme épico, envolto num clima de cinema noir.

O diretor dinamarquês passeia por esses gêneros sem perder a mão em nenhum momento. Nada falta, muito menos sobra. É um filme exato. No ponto. Precisão Pura.

O que assistimos em “Drive” é a história de um indivíduo em combate com o cidadão.  O motorista é um ser totalmente cético em relação à sociedade em que vive. Ele cria sua própria “moralidade”. Seu código de ética é rígido.

“Eu não participo do roubo e não porto armas. Eu dirijo.”

Ele é um solitário. Ou melhor, é alguém que sabe que tem que enfrentar solitariamente todos os perigos e riscos. É um homem quieto, silencioso, cheio de mistérios e pequenas nuances. Suas motivações pessoais soam contraditórias e exatamente desse material que emerge o lado mais encantador do filme. Quem é esse homem cujo nome não sabemos? Quem é ele? E o que ele quer?



Impossível saber. Resta-nos o mistério e o assombro ao ver até onde aquele homem pode ir...  Em busca sabe-se lá de quê!?

Eu até poderia afirmar aqui, que ele só faz o que faz por amor a personagem de Carey Mulligan e ao filho dela, mas o final propositalmente em aberto deixa o espectador com algumas dúvidas. Na verdade, os laços afetivos entre o personagem do motorista e a vizinha não é nada sólido. Muito pelo contrário. Tem muito de idealização ali. Ambos buscam um relacionamento que aplaque um pouco a solidão em que parecem viver. Ela, totalmente desprotegida. Ele, absolutamente solitário. Eles não vivem a paixão. Eles não se conhecem. Apenas idealizam-se. Trocam apenas um único beijo apaixonado durante todo o filme. Como diz Zygmunt Bauman, “onde há dois não há certeza. (...) Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro”. Daí que esses dois personagens que se envolveram como uma única alternativa possível para escapar da solidão, do desespero e da fragilidade acabam descobrindo às duras penas que tudo se tornou muito mais solitário, desesperador e frágil.

A jornada épica que o personagem de Gosling mergulha é a trajetória de um personagem abandonado à própria sorte e “moralidade”. Torcemos por ele, não por uma mera identificação babaca, e sim, porque também nós estamos todos abandonados à própria sorte e também nós temos que nos inventar e criarmos nossa própria “moralidade”. Sim. Baudrillard estava certo: “Somos todos cúmplices na espera de um roteiro fatal, mesmo se ficamos emocionados ou transtornado quando ele se realiza”.

PS: Ryan Gosling prova (mais um vez) porque é o melhor ator de sua geração, seu desempenho é simplesmente brilhante. Assim como o de todo o elenco, direção e equipe técnica.
 

Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema.

19 jun/14

Chico Buarque - 70 anos

postado por Diogo Branco



Meu caro amigo,imagine a música brasileira sem Chico Buarque. Sem o cavalo que falava inglês, sem Lily Braun, sem Rita, sem Iolanda e sem Marieta mandando "um beijo para os seus". Tarefa difícil.
Inúmeros personagens da música popular brasileira habitam nossas mentes, e acompanhamos com paixão suas histórias viscerais e cotidianas. 
Um dos maiores compositores de todos os tempos, Chico Buarque de Hollanda divide opiniões como cantor. A voz, de timbre marcante porém muito frágil, é capaz de conferir humanidade às suas canções, e usa isso com maestria a seu favor.De "lira inesgotável", como classificou Tom Jobim, Chico mostra aos poucos como se empenha em dar uma dimensão humana ao próprio mito. Está vendo esse sujeito caminhando incansável ao seu lado no Rio? É o Chico. Seu verdadeiro campo de atuação, mais que as quatro linhas do gramado onde joga futebol, é o da criação e da linguagem.
Parabéns, Chico Buarque!



Diogo Branco é um cronista apaixonado por música, e farofeiro.
Diogo Branco

17 jun/14

Cinderela

postado por Juliana Sfair

Nós mulheres não precisamos de dicas de como conquistar os homens, não precisamos também gritar ao mundo o quanto somos duronas e fodas, é mentira ! Mulheres e Homens são assombrados pela insegurança, o medo de não serem aceitos pelo outro; e o que parece auto confiança e postura arrogante, muitas vezes é a velha auto defesa.
Mulheres não precisam menosprezar o sexo oposto, dizendo que eles não prestam, acho isso coisa de mulher que ainda não se aceitou, complexo de inferioridade que alguns fatos da infância podem esclarecer. Impossível não fazer a conexão com Freud, quando levanto a questão da infância, pois é lá que estão nossos segredos ; nesse caso seria ótimo umas sessões de psicanálise.
Aí você fala, fala, fala, o psicanalista ouve, você xinga aquele galanteador que partiu seu pobre coraçãozinho de princesa inocente ( até parece, você sabia que era furada, mulher tem sexto sentindo e amigas ).
Sugeri um psicanalista, porque é chato aguentar o bonde da mulherada que só critica os homens, resmungam o tempo inteiro que são iguais, cafajestes.
A safadeza reside nos dois sexos, acredito em lealdade. Não acredito em fidelidade.
Precisamos de amor, sim ! Todos precisam !
Precisamos também de suco detox, bom humor e blusinhas de seda.
Mulheres lindas, vamos parar com essa chatice de criticar os homens a maior parte do tempo querendo que eles sejam anjos ou príncipes encantados com as juras de amor eterno ( Os contos de fadas ainda atormentam as cabeças de algumas mulheres-princesas da nova era ).
Os contos de fadas, desculpem a expressão “ ferraram “ tudo.
Enfim, eu também gosto da Cinderela. Eu sou um pouco Disney, confesso.
Eu prefiro sim os anjos, mas os anjos caídos.É mais excitante.
Sejamos serpentes.
 

Juliana Sfair 

16 jun/14

Cidade dos Sonhos - Crítica de Filme

postado por Mateus Barbassa


Página em branco.

É hora de tentar colocar em palavras o imponderável.

SIM.

Vou escrever sobre o filme da minha vida: “Mullholand Drive”
David Lynch é gênio. Direi isso várias vezes ao longo texto. Essa é minha única certeza. Minha bússola maior. Não direi isso gratuitamente. Direi simplesmente porque ele o é mesmo. “Mullholand Drive” ou “Cidade dos Sonhos” na tradução brasileira é um filme genial. Sim. Genial em sua simplicidade. David Lynch sabe que as coisas mais complexas de se “entender” são exatamente as mais simples. Aquelas coisas que nos deixam perplexos, com cara de meu deus que é isso? Lynch é assim. Simples e absolutamente genial.


Lembro-me até hoje da primeira vez que assisti “Cidade dos Sonhos”: Eu, moleque do interior, acabando de sair do terceiro colegial, acabando de descobrir a literatura por mim mesmo, “descubro” também a sessão de “filmes de artes” na locadora. Foi um desbunde. Chorei até não poder mais com Björk e Lars Von Trier em “Dançando no Escuro”. Impressionei com “Ken Park” de Larry Clark. Entrei em contato com a dor da existência de Bergman e seu “Gritos e Sussuros”. Fellini e “Noites de Cabíria” esfregaram na minha cara um possível retrato de mim mesmo. Mais ainda não tinha “descoberto” Lynch. Até que um dia que não me lembro exatamente quando, aluguei “Cidade dos Sonhos”. Lembro-me exatamente de que quando eu coloquei o filme para rodar era de madrugada e eu disse para mim mesmo que só veria os primeiros minutos para ver do que se tratava, depois iria dormir e veria tudo no dia seguinte. NÃO CONSEGUI. Logicamente não consegui. O filme me possuiu de uma maneira tão avassaladora que não desgrudava os olhos do que se passava ali na frente das minhas retinas.

“Meu Deus, o que é isso?” me perguntava. “Cinema, então pode ser assim também?”. A perplexidade de não se entender direito aquilo que se sente abarcou-me inteiro. Era o filme e o filme era eu. Pronto. Camilla, Diane, Betty, Rita eram todos possíveis personas de mim. Aquela história intricada, complexa e aparentemente sem pé nem cabeça era a vida humana. Sim. É preciso que alguém diga: a vida não faz sentido nenhum. Nenhum. Apesar de não entender, eu entendia. Tudo. Absolutamente tudo. Por vias outras. Inúmeras e muito mais complexas, ágeis do que meramente o racional. Não. Tudo em mim fervilhava e queria desabrochar. Como se minha vida inteira tivesse sido uma preparação, um ensaio para aquele filme. E de repente ali ao dar de cara com aquele filme o processo iniciara-se. Esse homem é gênio. Assustado, peguei o encarte e li baixinho seu nome: David Lynch. Não o conhecia. Já disse que era então apenas um moleque do interior. E repeti para mim mesmo: David Lynch é gênio. Sem pausas para água, banheiro ou lanchinho, vi o filme num único sopro. O sopro da vida. De repente todo aquele roteiro complexo/simples/genial desemboca numa cena: “Silêncio! Silêncio! No hay banda. Silêncio!”. Uma das personagens verbaliza o inominável da existência. Uma das personagens convence a outra e também a mim que deveríamos parar de ver o filme e irmos até um lugar. Eu e as duas pegamos um táxi e desembocamos num tal de Club Silêncio. Lá um homem vestido de terno e gravata grita: “Não tem banda.Isso é só uma gravação”. O lugar é uma espécie de teatro. Mágico. Eu, Betty e Rita nos olhamos assustados. Uma mulher vestida de azul, com um cabelo esquisito está no alto do palco. Assiste tudo impassível. “Não há banda. E só uma fita!”, o homem de terno e gravata repete. “Tudo é ilusão”, ele sentencia. Luzes piscam incessantemente. Betty e eu trememos. Não sabemos bem porquê. Rita tenta nos segurar. O homem de terno e gravata sorri e some em meio a fumaça e a luz. Uma luz azul calma banha o palco. Eu e Betty paramos de tremer. Um homem trajando um terno todo vermelho adentra a cena. Engraçado. Eu conheço-o de algum lugar. Mas de onde, meu Deus? “Senhoras e Senhores, o Club Silencio apresenta “A Chorosa de Los Angeles”: Rebekah Del Rio”. O Homem diz e sai. As cortinas vermelhas e espessas abrem um pouquinho. Um foco de luz branco é acesso. Uma Mulher meio cambaleante sai detrás das cortinas. Aproxima-se do microfone e canta:
“Yo estaba bien por un tiempo,
Volviendo a sonreír.
Luego anoche te vi
Tu mano me tocó
Y el saludo de tu voz.
Y hablé muy bien de tu
Sin saber que he estado
Llorando por tu amor.
Luego de tu adiós sentí todo mi dolor.
Sola y llorando,
Llorando.
No es fácil de entender
Que al verte otra vez
Yo seguiré llorando
Yo que pensé que te olvidé
Pero es verdad es la verdad
Que te quiero aún más,
Mucho más que ayer.
Dime tú qué puedo hacer
No me quieres ya
Y siempre estaré
Llorando por tu amor.
Tu amor se llevó
Todo mi corazon
Y quedo llorando
Llorando
Por tu amor.”


Essa canção penso eu, essa canção eu conheço. É a minha vida. Eu nunca a ouvi, mas ela estava em mim. Esperando para nascer. Essa canção também sou eu. Impossível não chorar. E eu desabo num choro ancestral. Maior que todos. O choro do entendimento. Sim. Sim Lynch eu entendi. Tudo. Tudinho. Uma Caixa Azul aparece na bolsa de Betty. Corremos para casa. A chave azul que estava na bolsa de Rita é o encaixe perfeito da caixinha que acabamos de descobrir. De repente, Betty some. Tudo muda. Sempre. Ninguém é mais ninguém. Todos somos outros. Sempre. O filme então começa.
Sim. David Lynch é genial. E “Cidade dos Sonhos” é a sua obra-prima. Já perdi a conta de quantas vezes eu mostrei esse filme para amigos, alunos, possíveis amores...
“Cidade dos Sonhos” guarda inúmeras semelhanças com a obra de outro gênio: Nelson Rodrigues. Outro mestre na abordagem de temas psicanalíticos e sublimes. “Vestido de Noiva”, talvez seja a obra que mais se pareça com a obra lynchiana, especialmente “Cidade dos Sonhos”. Para mim, ambas as outras tratam de ego ferido, psicótico, se o objeto do meu desejo não for meu, só meu, exclusivamente meu, não o será de mais ninguém. Ambas as protagonistas de Nelson e de Lynch são figuras insossas, sem brilho próprio que necessitam fantasiar a própria existência para que assim ganhe algum significado maior. Tanto no filme de Lynch quanto na peça de Nelson Rodrigues o que está em jogo é tudo aquilo que eu calo, que eu varro para o meu inconsciente, minhas sombras que teimosamente “optam” por ficar fora da luz da consciência. Ambas as protagonistas são figuras psicóticas. O conflito se dá entre o meu Ego versus o Mundo Externo. Sim. Elas repudiam a realidade e tentam incessantemente substituí-la.
Sim. David Lynch é genial. Nelson Rodrigues é ainda mais.


 
 Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema
 
 

14 jun/14

Copa do Mundo - Arnaldo Junior

postado por Diogo Branco

12 jun/14

Mamãe Passou Açucar em Mim

postado por Diogo Branco


"Malandro é o cara que sabe das coisas 
Malandro é aquele que sabe o que quer 
Malandro é o cara que ta com dinheiro 
E não se compara com um Zé Mané 
Malandro de fato é um cara maneiro 
E não se amarra em uma só mulher."


Numa dessas rodas de samba de domingo, sentado numa mesa à beira de uma movimentada esquina, pedi minha segunda cerveja enquanto ouvia o grupo começar uma singela homenagem em forma de pout-pourri a um dos grandes ícones do samba-enredo e samba de coco do Brasil: Bezerra da Silva. No primeiro acorde ao som de Bezerra, o ambiente parecia ter sido imediatamente tomado por um ar libertino. Comecei, então, a prestar atenção nas suas letras, e todas traziam a malandragem como tema. ‘’ Malandro é Malandro e Mané é Mané’’, ‘’Se segura malandro, pra fazer a cabeça tem hora’’, e por aí vai. O malandro é um personagem citado com frequência nos sambas, bem como as ‘’cabrochas’’. Voltei pra casa tentando entender a magia de tal personagem, e concluí que o charme e a lábia que preenchem a vida hedonista de um malandro definitivamente não pertencem este ser que vos escreve, nem como músico, e muito menos na vida pessoal. Pior pra mim, afinal, os malandro tem o  lado ‘’cafajeste’’ e  No imaginário popular brasileiro, diz-se frequentemente que os malandros exercem maior atração nas pessoas, inclusive sendo mais bem sucedidos em suas relações amorosas. Além disso, a meu ver, a malandragem bem resolvida é aquela feita por pessoas extremamente criativas que vivem criando artimanhas para obter vantagem em determinada situação. Com muita engenhosidade para alcançar seus objetivos, esse tipo social está sempre em nosso convívio, tenha você reparado nisso ou não. Tenho amigos obviamente malandros, não precisam de chapéu de lado e nem sorriso de canto de boca: Chegam no maior estilo ‘’Mamãe Passou Açucar em Mim’’ e fazem sucesso por onde passam (observe: não estou aqui falando de beleza, mas sim de atitute). A mulherada gama e não é à toa, alguns estudos comprovam a relação do tesão feminino com os homens cafajestes ( acabei de ler o artigo ‘’ "Ovulation Leads Women to Perceive Sexy Cads as Good Dads ‘’ ou "Ovulação leva as mulheres a perceberem homens sexy e cafajestes como bons pais", feito pela professora da Universidade do Texas (EUA) Kristina Durante, que comprova tal relação). Talvez eu ainda precise trabalhar esse meu lado. Vou parar esse texto e ir pra frente do espelho treinar um olhar mais sedutor ou um timbre mais atraente para se falar ao pé do ouvido. Ou quem sabe eu adicione algumas pitadas do suingado Wilson Simonal ( malandro-mor da nossa MPB ) no meu repertório,na lista de reprodução do meu MP3 e saia por aí cantando no maior estilo ‘’Vadinho’’ de ‘’Dona Flor e Seus Dois Maridos‘’: Nem vem que não tem/  Nem vem de garfo/  Que hoje é dia de sopa/ Esquenta o ferro/ Passa a minha roupa/ Eu nesse embalo/ Vou botar pra quebrar/S acudim, sacundá/Sacundim, gundim, gundá!’’



12 jun/14

A culpa é das estrelas - Crítica de filme

postado por Mateus Barbassa



”Cada um é o destino do outro, e sem dúvida o destino secreto de cada um é destruir o outro (ou de seduzí-lo), não por maldição ou por qualquer outra pulsão de morte, mas por sua própria destinação vital.”

Com esse trecho escrito pelo filósofo francês Jean Baudrillard eu começo meu texto sobre o filme “A Culpa é das Estrelas”. Sim. O filme que num primeiro momento pode parecer ser apenas uma bobagem adolescente é muito mais que isso. Mas já adianto que cada um é universo em si e só pode enxergar aquilo que traz dentro de si. Desde criança,  eu soube que quem construía as histórias e dava significado às coisas era eu mesmo. Ideia reforçada no e pelo teatro. Onde é preciso estar diante da obra sem nenhum desejo e também sem nenhuma memória. E sedimentada ainda mais pela prática da meditação. Onde o único instante que existe é o agora e nada mais. Fiz esse preâmbulo como uma justificativa mesmo. Assumo. Parece que preciso assumir pra mim mesmo que gostei do filme. Como se fosse uma heresia ou algo assim. Dito isso, acho que posso começar.



O filme me pegou. Inexplicavelmente me vi envolvido pela história de Hazel Grace Lancaster e Augustus Waters. É como escreveu Clarice Lispector: “Ou Toca ou não Toca”. Simples assim. E eu me permiti ser tocado pelo filme. Eu disse SIM para ele. É um filme simples. Clichê, alguns dirão. Sim. Não nego. É simples e clichê. O.K. Mas tem algo nele de muito verdadeiro. E o que é esse algo? Tentarei explicar.

O amor em nossa contemporaneidade tornou-se quase divino. Buscamos nele algo que dê sentido para a nossa própria miserabilidade. Sim. Somos miseráveis. Se você ainda não se deu conta disso, sorry, mas ... Somos obrigados a amar. Um sentimento tão genuíno tornou-se uma obrigação. Artigo para vender mercadorias, bugigangas. Dar lucro. A obrigatoriedade de amar é uma fonte de lucro absurda. Consumimos músicas, filmes, novelas, livros, jóias, jantares, roupas, perfumes...  Tudo na expectativa amorosa. Esse é o nosso aprendizado. Isso é o que somos. Romper isso é difícil. Quase impossível. Daí que é preciso aparecer um filme como “A Culpa é das Estrelas” para explicitar tudo isso. E ao mesmo tempo provocar uma hecatombe dentro de mim.

Lá pelas tantas Hazel alerta Augustus: Fique longe de mim, eu sou uma granada. Na mosca. Metáfora perfeita. O amor é essa granada. O amor é um fim em si mesmo. Não tem utilidade efetiva nenhuma. Por que amamos? Porque sim, ora essas. Não precisa de explicação. É e pronto. Aceita que dói menos. Tudo isso estou falando sobre o amor verdadeiro. Não sobre o falso. Mistura de luxuria com desejo de posse e de escravidão. Não. Falo do amor que torna tudo rico, uma grande brincadeira. Aquele amor que em sua forma mais pura é alegria compartilhada como escreveu Osho.  Pra sentir esse amor é preciso ser maduro e ingênuo ao mesmo tempo. Sim. A vida é feita de contradições e você já devia saber disso. Nada é uma coisa só. Mas também o seu oposto.

Hazel e Augustus têm câncer. Cada um o seu. Com sua especificidade e poder de destruição. Eles vão morrer. Há uma urgência nesse fato inexorável que torna tudo muito mais angustiante. Não há mais espaço para (os nossos tão corriqueiros) tempos mortos. Não há tempo para bobagens. Não há mais tempo para a mentira.
Não há tempo para perda de tempo. Não há tempo. Não há mais. Muitos pensam que o ódio é o oposto do amor. Alguns mais espertos dizem que é a indiferença. Mas não. Nem um nem outro. O verdadeiro sentimento oposto ao amor é o medo. E desse mal os personagens protagonistas não padecem. Até um pouco no começo. Mais Hazel do que Augustus, é verdade. Mas o medo desaparece. Torna-se amor. Latente. Puro. Intenso. Alegria (e por que não também dor?) compartilhada. Eles se dão. Doam-se um para o outro. Vivem aquilo que têm para viver. Isso o que mais me toca no filme. Osho tem um texto tão lindo em que escreve assim:

”O amor é se aproximar do outro sem medo, com uma enorme confiança de que será recebido - e ele sempre é. O medo se encolhe dentro de você, fecha o seu ser, fecha todas as portas, todas as janelas para que o sol, o vento, a chuva não possam atingi-lo, tamanho o seu pavor. Você está se enterrando vivo.



O medo é uma sepultura, o amor é um templo. No amor, a vida chega ao seu apogeu. No medo, a vida resvala para o nível da morte. O medo fede, o amor é perfumado. Por que você deveria ter receio?”

Por que você deveria ter receio? Porque assim fomos ensinados. Doutrinados. O outro é a ameaça. O mal. O inferno. E assim negamos a vida na esperança de vivê-la. Medo. Só medo. E Hazel e Augustus talvez pelo câncer, talvez pela urgência, talvez pela pouca idade permitem-se um se aproximar do outro sem medo. Tá, tudo bem que o filme faz deles um casal de namorados e que blá blá blá, mas isso é só a superfície. Existem outras camadas. Precisamos ir além. Ir mais fundo. Sempre. E é nesse processo louco de mergulho um no outro que acontece a maior epifania de todas e a que mais me provoca nessa história de Hazel e Augustus:

É que quando mais eles caminham em direção a morte, mas eles se afastam dela. Porque eles vivem. Não meramente comem, dormem, trabalham, estudam. Verdadeiros Zumbis. Não. Eles vivem. Isso é tão mágico e mostrado de uma maneira tão doce no filme que me tocou profundamente. Eles são tão conscientes da morte que se tornam inocentes em vida. A vida se torna maior, mais vivida, intensa e bela. Uma celebração. Um êxtase.

Mas nada disso seria possível sem a atuação sensível de Shailene Woodley e Ansel Elgort que vivem os protagonistas. O filme é deles. O filme é eles. Como é bom ver atuações tão jovens e cheios de verdade, entrega e doçura. Não são só as falas do filme que encantam. Mas o subtexto. As entrelinhas. O Silêncio. Os olhares. Shailene e Ansel fazem Hazel e Augustus serem palpáveis. Carne e osso. Eles atuam num campo emocional muito difícil de ser acessado. Estão entregues. Despidos de artifícios tão comuns nesse tipo de filme. Pode parecer até loucura, mas identifiquei neles algo tão profundo quanto nas atuações de Michelle Williams e Ryan Gosling em “Blue Valentine”. A mesmíssima entrega e sensibilidade. É tão bonito de ver quando a atuação extrapola o fílmico, o roteiro... Eles dão vida. Eles vivem. Se doam um ao outro. O filme só dá certo por eles. Lógico que a direção também segura a onda muito bem. Lógico que a trilha sonora é maravilhosa. Mas se não fosse pela química que rola entre o casal nada disso faria sentido.

E outra coisa que me chama a atenção. Num tempo totalmente dominado pelas relações virtuais ver os dois começando uma relação permeada pelo real desejo de conhecimento um do outro e pela troca de livros (que não são apenas livros prediletos, mas universos particulares de cada um) é um alento tremendo. Algo como “eu confio em você, toma aqui meu mundo... esse sou eu.”

São esses pequenos detalhes que me fazem ficar fã do filme. Tão fã que senti vontade de passar numa livraria e comprar uma edição de “A Culpa é das Estrelas” e devorá-lo todinho. Só não o fiz porque todas as livrarias estavam fechadas. (Risos).

PS: No dia seguinte, comprei o livro!


Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema.
Ah, e farofeiro também.

10 jun/14

Liz

postado por Juliana Sfair

Hoje é segunda-feira, preciso ser menos impulsiva. Essa vontade de virar as costas e dizer:dane-se, é a sua vida, não é a minha. Não é o meu sonho.
Essa é uma lembrança forte que ficou, e que o tempo cinza aqui de Londres ajuda a amenizar.
Por dentro eu tentava com toda a minha sabedoria e força me calar, fingir, sorrir. Eu tinha que sobreviver para atingir meu objetivo.
Chove aqui há 3 dias, fico quieta, pensativa e moderadamente feliz. Uma felicidade equilibrada, sem picos de euforia. Aliás, sempre detestei euforias.
Fico silenciosa,observando e garanto à vocês que isso é essencial na minha trajetória.
É bom ficar longe do Brasil, aqui eu ando de tênis, rabo de cavalo e sem maquiagem. Me faz um bem enorme ser simples, me santifica de alguma forma. Fica mais fácil minha conexão com a natureza, os pedidos de uma vida plena.
Para mim, plenitude é ficar sozinha. Sentir as manhãs, ganhar meu dinheiro quietinha, entrar nas livrarias sem me preocupar com o relógio.
É preciso SENTIR a vida, é preciso tempo para olhar os pássaros, andar descalça.
Respirar o ar puro da natureza e meditar.
Deitada no sofá, com calça de moletom, blusa velha e cabelo sem pentear, eu pensava em qual lugar do mundo estaria minha verdadeira família. Porque eu tinha uma família, eu TINHA que ter uma família feliz que montava árvore de natal.
Alguém que perguntasse o que eu queria de presente. O que eu precisasse.
Olhando o céu cinza, as folhas dançando com vento; o pensamento ia longe.


Juliana Sfair é atriz, escritora e blogueira.

09 jun/14

Crítica do filme "Malévola"

postado por Mateus Barbassa



Well, well... Preciso começar dizendo que “Malévola” é uma parábola. E só pode ser entendido dentro desse universo. Porque fora disso, tudo o mais se invalida. Bom, pra começo de conversa, eu tive muita resistência ao filme. Não gosto de filmes com muitos efeitos especiais. Fujo. Corro. Não assisto simplesmente. Mas dei uma chance e me surpreendi. O filme é bem mais que uma recriação de “A Bela Adormecida”. É um filme sobre o amor. Sobre esse poderoso e tão propagado sentimento. Mas vai além do mero amor romântico. É sobre a misteriosa sensação de enraizamento, de pertencimento, que o amor nos provoca.

No livro “Amor – Uma História”, o filósofo Simon May escreve assim:

”O amor é evocado não por beleza ou excelência moral (no sentido da bondade), mas pela misteriosa promessa do amado de ancorar e sustentar nossa vida, de modo que possamos nos sentir em casa no mundo.”
 
É isso. Exatamente isso. Malévola, (a personagem) é uma figura que destoa das outras de seu grupo. É uma fada, mas tem chifres e asas que lhe dão um aspecto dark. É menina, mas é a ela que os outros recorrem quando acontece um problema. E é nessa circunstância que Malévola conhece Sthepan, um garoto ambicioso que é pego tentando roubar uma jóia do reino encantado. E será desse encontro com o diferente que algo novo surgirá. Primeiro, uma grande amizade. Depois, um estado de enamoramento. Malévola e o Sthepan se apaixonam. Mas... Ele é extremamente ambicioso e aos poucos se distancia dela. Ela sofre com a ausência. Anos depois, o reino encantado é atacado pelos humanos. Sim. Porque sempre é preciso atacar o diferente. “Malévola” defende seu reino e ganha a guerra. Porque enquanto os homens possuem armas e dinheiro, ela possui também poderes, mas de outras ordens. E como escreve Jean Baudrillard em “A Transparência do Mal”: “O poder simbólico é sempre superior ao das armas e do dinheiro” ·



Malévola, apesar de poderosa, é ingênua e cai na lábia de Sthepan, que movido por uma ambição desmedida, seduz, engana, ludibria-a. Ele corta suas asas. Pois esse é o papel do macho. Não permitir o vôo da mulher. Mantê-la prisioneira ao patriarcado. Oferece as asas de Malévola ao rei que está prestes a morrer e se torna o sucessor dele. Pois esse é o papel do homem. Manter-se no poder sempre. Já Malévola é obrigada a conviver com sua dor. (Talvez seja o papel destinado às mulheres?) E nesse processo, ela é tomada por um desejo de vingança avassalador e joga uma praga na filha do homem que a enganou. A história já narrada milhões de vezes é a mesma. A menina ao completar dezesseis anos espetará o dedo numa roca de fiar e dormirá pra sempre. O agora rei Sthepan implora para que Malévola tenha compaixão da filha. Ela, então, faz a concessão. Diz que o feitiço só será desfeito se ela for beijada por alguém que a ame de verdade. Pronto! Estamos dentro do já conhecido. Sim. Afinal, já vimos essa história muitas vezes. Mas calma. O Rei atormentado designa que as três fadas cuidem de Aurora bem longe do reino. Elas partem. Malévola descobre o esconderijo e passa a vigiar a menina. E aqui o inesperado acontece. Novamente o encontro diferente provocará Malévola. Aurora não tem medo dela. Pelo contrário. Procura-a. Quer colo. Cuidado. Aurora é o retrato do desamparo. As três fadas não cuidam bem dela. E ela quase morre algumas vezes. Seja por fome ou por desatenção. E quem sempre salva a menina? Sim. Malévola torna-se a fada madrinha de Aurora. Sempre a seguindo. Sempre a espreita. E nesse processo, Malévola se reconhece na menina. Ao seguir Aurora, Malévola segue o seu próprio rastro. Vê sua história de fora. Resignificada. Enfim, Malévola cai no seu próprio feitiço. Sim. Baudrillard já afirmava que “cada vive da armadilha que prepara para o outro”. Malévola e Aurora tornam-se cada dia mais próximas. Porém, o grande dia se aproxima. Aurora fará 16 anos. E assim como Malévola conhecerá o significado da palavra “traição”. Apesar dos esforços de todos, a maldição se cumprirá. Mas o desfecho... ah, o desfecho ... (Não vou contar para não estragar a surpresa de quem ainda não viu o filme) é uma verdadeira ousadia. Um passo além. É a grande sacada do filme!!!!  Tá... Ok? Se o filme provoca essa subversão do gênero feminino, qual o papel do homem nisso tudo? O rei torna-se um arremedo de homem. Confrontado diariamente consigo mesmo através do que foi capaz de fazer por poder e dinheiro. O Príncipe é um perdido. Desde a primeira cena, ele já nos é apresentado assim. Na última cena também. Reparem. Interessante! Muito interessante! Mas eu ainda sonho com um filme que ultrapasse toda essa questão de gênero. Pensando bem, não sonho só com um filme não... É. Mas ... (Suspiro) ... 

No final das contas, o filme é uma reflexão sobre o medo de ser abandonado por quem amamos ou acreditamos amar. Talvez o que procuramos nos outros seja essa a desterritorialização que uma viagem para um lugar desconhecido nos provoca. Baudrillard estava certo. 


Mateus Barbassa: Ator, diretor teatral e crítico de cinema.



08 jun/14

Poesia de Udar

postado por Diogo Branco

"A inspiração mora em todos.
Mas poucos lhe dão um lar."

Udar