06 jan/18

Roda Gigante - Crítica

postado por Mateus Barbassa




Melodrama é um gênero teatral caracterizado por carregar nas tintas dos vícios e virtudes de seus personagens. Digo isso, porque só é possível entender “Roda Gigante” do diretor Woody Allen dentro desse contexto. É um melodrama assumido. Daqueles bem rasgados. Também é estudo de personagens e de uma época. Sim. Estamos nos anos 50 e somos apresentados aos seguintes personagens:

Uma mulher de quase 40 anos que vive com um marido bem mais velho que ela nos fundos de um parque de diversão. Ela tem um filho entrando na adolescência com tendências piromaníacas. A história dessa mulher hoje relegada a trabalhar como garçonete naquele local é das mais interessantes. Ela foi atriz, teve um namoro e um filho com um baterista que a deixou porque foi traído por ela. Sem eira nem beira, foi salva por sua beleza. Essa mulher é Ginny. E seu anjo da guarda é Humpty, um operador de carrossel, que lhe dá teto e a ajuda criar seu filho. Mais ela quer mais. Acha pouco essa vidinha média. E é ai que entra Mickey. Nos seus acessos diários de tédio, Ginny sai para dar uma volta na praia e lá é vista por esse homem que trabalha como salva-vidas do local, mas que sonha em ser dramaturgo. Ele a aborda e iniciam um romance. Tudo vai bem até aparece a filha de Humpty. Ela que saiu de casa aos 20 anos de idade para se casar com m gangster italiano, depois de algum tempo, se dá conta da furada da situação e decidi botar um fim na relação e agora está sendo procurada por ele. O pai reluta em aceitá-la de volta, mas acaba deixando ela ficar. Pronto! Lógico que a chegada de Carolina desperta interesse em Mickey e o caos está armado.

Fiz esse resumo para que possamos entender a razão do conflito e onde ele se inicia. Para mim, tudo tem origem na maneira como educamos meninos e meninas. Nessa diferenciação cultural. Está tudo aí. E isso cobra o seu preço. E normalmente, altíssimo. O que começa com um caso de verão, aos poucos vai ganhando contornos cada mais vez mais dramáticos. Ginny quer segurança, quer fugir dali, quer outra vida. Mickey também parece quer isso. Mas hiperdimensiona um pouco as coisas para impressionar aquela mulher. Mulheres são educadas para serem as mantenedoras da vida, enquanto os homens são Ícaros. Sonhando com asas em busca do sol. Mas a realidade é que como no mito, estão presos, como punição, naquele labirinto. Reféns de seus desejos. Mickey conhece Carolina e se apaixona por ela. E não sabe muito bem o que fazer, então ele mente. Mente tanto para Ginny, quanto para a outra. Essa é também uma socialização masculina. E é aqui que um comportamento bastante ligado ao universo feminino aparece. Ao notar o interesse de Mickey em Carolina, Ginny se desespera. E pouco a pouco, vai se tornando o estereótipo da mulher histérica. Além disso, ela vê seu marido mudando de comportamento com ela e mimando em demasia a filha. E é aqui que que a tal propagada rivalidade entre mulheres aparece com força total Sim. Porque mesmo sem Carolina saber do caso de seu affair com a sua madrasta, elas estão disputando Mickey. E é claro, que contornos machistas vão aparecendo cada vez mais. Ginny sabe que não terá armas para competir com a juventude e beleza de sua enteada, e ela, então, começa a tramar contra aquela relação. Para isso, usa as armas que tem; se faz de amiga dela, dá conselhos, fala mal de Mickey, etc, etc... Mas nada disso parece dar certo. A angústia e o desespero de não conseguir sair daquele parque de diversão a consomem. A personagem enlouquece e se desliga totalmente da realidade e passa a habitar em seu idílio amoroso. Não é mais uma mulher, mas uma fantasmagoria. Todos serão punidos de alguma forma. Não há saída possível. Todos serão mandados de volta para seus próprios labirintos. E essa punição se dá porque ousaram se deslumbrar com suas asas e com a beleza do sol.   




Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema