12 mar/14

Blues e João da Gaita

postado por Diogo Branco



João da Gaita não vive mais em Ribeirão Preto, mas garante ao Farofa aquilo que seu público já sabia: "Tenho uma gratidão imensa por Ribeirão Preto, surgi aí, tive total respaldo do público, tive momentos impares". Grande parte destes episódios singulares foram vividos ao longo do ano passado (2013), quando sua imagem estampava dezenas de flyers e seu nome abarrotava agendas. 



Nos Estados Unidos, ele corre atrás dos seus sonhos, assegurando a todos: "It Just Depends On You" ( Só depende de Você ) .
E por lá,  não apenas seu nome mudou.  ''Minha agenda é a mais louca que vocês podem imaginar''.



Podemos imaginar, mas como gostamos de aprender com os relatos de experiências de vida, convidamos João da Gaita, John Harp ou o João Paulo (como preferir) para ser nosso primeiro entrevistado da categoria "Música".
Não apenas por ter se destacado ultimamente no cenário musical da cidade, mas também pela sua generosidade e prestatividade:

"Por sinal, ótimas perguntas! Vou responder com muito carinho"



(Além disso, começamos com um músico local pois sabemos que Ribeirão Preto é repleto de bons artistas, e não podemos deixar de puxar sardinha para o nosso lado.)

DIOGO BRANCO – Antes de começarmos a entrevista, me explica: Devo chamá-lo de João da Gaita ou de John Harp?
JOHN HARP: Primeiramente obrigado pelo convite, é uma honra estar aqui ! John Harp é a mesma coisa que João da Gaita, mas aqui no EUA eles não conseguem falar "João" então um amigo sugeriu "John Harp" .Gostei e adotei... Pode me chamar de John, gosto desse nome!

DIOGO BRANCO – John, onde o Blues acontece? Você encontrou fora do Brasil um espaço maior para dar asas ao seu sonho?
JOHN HARP- Atualmente o blues acontece em todo mundo, mas aqui na Califórnia o Westcoast Blues está bem forte. Por enquanto só encontrei pedras no meu caminho ( risos ), mas o começo é assim mesmo, é tudo novo pra mim. Sinto que estou no lugar certo, a cena musical em Los Angeles é muito forte, muita coisa acontece aqui, muita coisa nasce e renasce aqui !

DIOGO BRANCO- Assistindo suas apresentações, notei um domínio da plateia causado principalmente pela sua entrega ao palco. Em alguns casos, o blues é a emoção pessoal do indivíduo que encontra na música um veículo para se expressar. O blues te ajuda nesse sentido, ou seja, como uma forma de terapia?
JOHN HARP – Sim, totalmente. O blues é minha escola de vida, a minha vida inteira eu me dediquei a isso, doei todo meu tempo para o blues. Quando estou tocando e vejo alguém feliz, sinto que consegui mexer com os sentimentos de alguém é como se estivesse no melhor lugar do mundo.
Pra mim não importa tocar pra 6 pessoas ou 50 mil, sou o mesmo John Harp todos os dias.




DIOGO BRANCO – Existe blues que sobreviva de técnicas?
JOHN HARP- Acredito piamente que não, o blues precisa de história , precisa de caldo, se você não tem nada pra oferecer (feelings) , você não está tocando blues.

DIOGO BRANCO - Alguns mitos como Junior Wells, Carey Bell e Paul Butterfield firmaram o elo com o blues ainda na infância/adolescência. Com você, o interesse por esse estilo musical sempre existiu, ou foi amadurecendo com o tempo? Você já chegou a tocar outro estilo?
JOHN HARP- Eu escuto blues desde os meus 11 anos de idade, tenho 29 hoje, nunca toquei outro estilo musical, até o momento só toquei blues, já tentei mas não vejo ''cresce'' em mim, tocando outro estilo, o blues pra mim é como gasolina para um carro.


DIOGO BRANCO – A gaita surgiu em sua vida como um presente de um amigo. Você levou esse episódio como um sinal ou algo do tipo para começar a estudar esse instrumento? Não fosse através do seu amigo, você acredita que seria um interesse seu comprar uma gaita e se se envolver com esse instrumento da maneira como se envolve?
JOHN HARP –Sim, ganhei de um amigo e o que mais me espantou foi o que ele disse quando me deu a gaita: " Isso vai te trazer muita coisa" ...Um ano depois disso eu estava tocando 7 horas por dia . Com certeza minha missão é essa , tocar gaita.




 DIOGO BRANCO- Há uma influência de Sonny Boy Williamson em sua maneira de tocar, ou estou enganado? Ele é uma referência para você ?
JOHN HARP – Você não se enganou. Ouvi muito Sonny Boy Willianson (Rice Miller), junto com Júnior Wells,James Cotton , Jason Ricci e little Walter Sao minhas maiores influências.

 DIOGO BRANCO – Uma vez, ao telefone com você (nem sei se deve se lembrar disso), comentei que seu timbre era muito grave e se assemelhava ao de um locutor de rádio (risos). Você tem cuidados com a sua voz?
JOHN HARP - (Risos) Obrigado pelo elogio! Mas não acho minha voz muita boa , cantar pra mim é algo novo e não tenho a mesma segurança que tenho tocando, mas tenho o tempo e ele é o nosso melhor amigo. Não tenho cuidados especiais não, na verdade não tenho nenhum cuidado, só evito ar condicionado !

DIOGO BRANCO – Qual é a imagem que você acha que transmite do João da Gaita ( artista ) ? Há diferenças entre o João em cima do palco do João do dia a dia ?
JOHN HARP -Eu não sei , não tenho uma certeza. É difícil afirmar isso, mas dou o meu melhor sempre , tento transmitir o máximo de verdade possível, apenas tento por pra fora os meus sentimentos. Sim, o João no palco é o John Harp,e no dia a a dia sou o João Paulo.

 DIOGO BRANCO – Quais são os seus projetos para 2014 ? Podemos esperar mais shows seus aqui em Ribeirão Preto?
JOHN HARP –Meu projeto é continuar aqui nos EUA , gravar um clipe em julho e um material de áudio, tipo um CD (mas não será no formato de CD), tenho umas ideias e quero introduzir nesse material. Logo menos o DVD do SESC estará disponível. Foi o melhor show da minha vida, eu me desafiei em fazer algo diferente e não fiquei muito longe do que eu imaginava, esse DVD tem muita verdade e trabalho.
E Ribeirão por enquanto está distante do meus planos, mas aí é meu berço , minha área, uma hora ou outra voltarei. Tenho uma gratidão imensa por Ribeirão Preto, surgi aí, tive total respaldo do público, tive momentos impares,espero quando voltar, voltar com um show diferente, grande, algo como minha gratidão .

DIOGO BRANCO – Na sua opinião, como o artista é visto hoje em dia no Brasil ?
JOHN HARP -Depende cara, você tem inúmeros caminhos pra se escolher como músico, todos tem seu preço, mas no geral o músico hoje no Brasil não é encarado como artista, falta uma série de coisas. Eu já fui muito crítico e hoje estou tentando ser diferente, falar menos e fazer mais, música é um business como qualquer outro, se você não encarar seu negócio como uma empresa.

DIOGO BRANCO – O que João da Gaita pode deixar de recordação para a eternidade?
Gostaria que seus netos e descendentes conhecessem e ouvissem sem som ?
JOHN HARP – Claro, não apenas meu som, mas principalmente a minha história,meus antepassados me deixaram uma missão e preciso cumprir essa missão para que meus filhos e netos tenham a mesma força pra seguir em frente.

DIOGO BRANCO- Como costuma ser sua agenda por aí ? 
JOHN HARP- Minha agenda é a mais louca que vocês podem imaginar !!! Vivo uma realidade diferente, estou me adaptando ainda .



DIOGO BRANCO – Também como músico, já pude conviver, mesmo em pouco tempo, com os dois lados da moeda: Em alguns momentos, aplausos calorosos e elogios. Em outros, críticas negativas e mesas que não pagaram o couvert. Sabendo que o artista é, por sua natureza, vaidoso e muitas vezes preocupado com a imagem, como você lida com o seu ego?
JOHN HARP - Pois é, o ego é o que mais fode artistas no mundo , e trabalhar o ego é uma coisa muito difícil. Eu já cansei de passar por situações desagradáveis, como tive momentos de glória máxima. É um jogo, você tem que saber jogar, saber perder (ouvir críticas), digerir e tentar trazer isso ao seu favor. Não existe um gráfico para isso,tem que saber lidar.

 DIOGO BRANCO – O que é sucesso para você ?
JOHN HARP - É eu ter condições para dar continuidade a tudo que é importante pra mim. Não é por dinheiro, se fosse por dinheiro teria virado político, ta ligado? (Risos) É pela história, é pelos momentos. Sucesso é uma palavra mal interpretada, assim como ambição. Ambição é bom, ruim é ganância, (risos) Você não precisa vender seus shows por 200.000 dólares pra ter sucesso se você tem saúde, família e as condições para conduzir isso, você tem sucesso.


DIOGO BRANCO – Em Ribeirão Preto, qual músico te inspira ? 
JOHN HARP – Beto Leoneti !Me inspira muito !!! Muito profissional ,extraordinário músico, gente da melhor qualidade. Tive o privilégio de tocar com ele e viver alguns momentos. Betão é aquele cara que sempre vai ter uma solução pro seu problema! Agradeço a Deus pela permissão de tocar com inúmeros músicos talentosos.

DIOGO BRANCO – Para terminar esta entrevista, cite o trecho de alguma música que traduza quem é João da Gaita hoje, ou o que está sentindo no momento.
JOHN HARP - "It just depends on You " .Tudo na vida só de depende de você, qualquer coisa que você almeje está ao seu alcance, só depende de você !!