Cinema

18 abr/17

13 Reasons Why - Crítica

postado por Mateus Barbassa




" - Eu te amo e nunca vou te magoar. Eu não vou embora, nem agora, nem nunca. Eu te amo, Hannah.
- Mas por que você não disse isso quando eu estava viva?”


Gostaria de começar esse meu texto sobre a série “13 Reasons Why" da Netflix indo bem direto ao ponto. Comecei a assistir devido a enxurrada de textos que dominaram as redes sociais. No começo eram só elogios e aos poucos opiniões profissionais alertando dos perigos da série. Fiquei curioso e fui assistir. Confesso que os dois primeiros episódios não me pegaram tanto. Achei a direção um tanto quanto preguiçosa e depois que fui perceber que o diretor era o mesmo do filme “Spotlight” que eu odiei. Depois do segundo episódio a direção muda e eu comecei a gostar e me envolver com os personagens e história. Durante os episódios seguintes fiquei tentando entender tanto as críticas positivas quanto as negativas e meu pensamento ia sempre para uma outra direção. Explico. Não acho que o tema central seja suicídio ou depressão ou coisa parecida. Creio que a coisa é muito mais profunda que isso e pouca gente conseguiu captar por causa dessa polarização idiota de gostar ou não. Mas evitei falar sobre isso porque queria assistir aos episódios todos e só depois emitir uma opinião ou não.
 
Bom, no meu ponto de vista o tema central da série é a socialização masculina e suas conseqüências desastrosas na sociedade. Repare que todos, sim, eu disse todos os personagens são vítimas desse processo civilizatório. O que Hannah faz com suas fitas é trazer consciência de cada ato. Sim. De um jeito torto, adolescente, mas ela está tentando entender. E esse é o aspecto que mais gosto na série. Precisamos falar sobre isso. Homens e mulheres são educados de maneira diferentes, conflitantes até. A polícia de gênero vigia os corpos antes mesmo de eles nascerem. Toda educação, sonhos e futuro são definidos quando o médico diz o sexo dos bebês. É como se fosse um nefasto sistema de castas indiano. Nasceu homem e se manteve heterossexual? Toma aqui alguns inúmeros privilégios. Deu a infelicidade de nascer mulher? Vamos te constranger psicologicamente e te fazer submissa. Quase sem nenhuma possibilidade de sair fora ou se mover dentro desse sistema.
 

E o que a série nos apresenta é um estudo assustador dessa socialização masculina. A esmagadora maioria dos meninos retratados possui uma dormência emocional assustadora. Falta-lhes o essencial: empatia, compaixão. Mas não foram ensinados a ter. Não chore. Seja homem. Não demonstre sentimento, emoção. Seja homem. Pegue o máximo de meninas que conseguir, sem se importar com nada. Seja homem. E acima de tudo não seja um gay, não seja mulherzinha. E o que é ser gay ou mulherzinha nesse contexto? É ter sentimentos. É se importar com os sentimentos alheios. É nesse momento em que todos são vítimas e ao mesmo tempo algozes de si mesmo e uns dos outros. É preciso se vigiar. É preciso vigiar o amigo. Então, tome brincadeirinhas de gosto duvidoso. Elas servem de alertas. Olha aqui, se você ousar sair do esperado, vai se dar muito mal. Todos os personagens masculinos da série são extremamente solitários. Não dividem segredos. Não conversam sobre nada que não seja videogame, mulher, cerveja, sexo e esporte. São inábeis emocionalmente. Todos sofrem, mas não sabem como sair desse círculo vicioso.
 
Na outra ponta, temos as personagens femininas. Elas até querem ser amigas umas das outras, mas não conseguem. O estado de competição que são impostos a elas também cobra seu preço. Elas precisam disputar os meninos entre si. Você nunca se perguntou os motivos daquele garoto idiota sempre estar namorando uma garota muito mais interessante que ele? Garotos assim raramente ficam sem namorar. Repara! Mulheres são socializadas para serem mantenedoras da vida, das relações. Aceitam a submissão e perdem o seu melhor. É triste. Mas é assim.

"Tem que melhorar, a maneira que tratamos uns aos outros e olhamos uns pelos outros, de alguma forma temos que melhorar."
 

E correndo por fora. Temos os “outsiders”. Aqueles que são diferentes dos demais e que podem fazer a diferença no mundo. Na série são representados por Hannah e Clay. Esses são talvez os que mais sofrem. Porque representam tudo aquilo que incomoda os demais. Então, pagaram o preço também. Toda a história que acompanhamos é do ponto de vista desses dois personagens. Eles se gostam, mas não conseguem admitir o sentimento que nutrem um pelo outro. Clay é o típico adolescente nerd, intovertido, magro demais, sensível demais, inteligente demais, não faz nenhum esporte, não tem traquejo com as meninas.. Ele também sobre bullying dos outros garotos. E seu contato com Hannah é apenas superficial. Embora ambos queiram estreitar esses laços, não conseguem. Com a morte de Hannah, Clay se revolta contra tudo e todos e mergulha num processo destrutivo e necessário.



"Este armário é especial, ele era de uma garota que se matou. Estão vendo todos esses cartaz de "não se mate" nas paredes? Eles não estavam ali antes. Eles foram colocados porque ela se matou. E por que ela fez isso? Por que os jovens daqui a trataram feito merda, mas ninguém admite. Então pintaram os banheiros e fizeram um memorial, porque esta escola é assim. Todos são muito legais até que fazem você se matar. E cedo ou tarde, a verdade virá à tona. Ela vira à tona. Bem-vindos a escola Liberty."

Essa suposta ordem é brutal e representa uma visão de mundo machista e misógina que chamamos de Patriarcado. Um sistema que oprime, explora e objetifica mulheres. E é exatamente esse o conteúdo de todas as 13 fitas gravadas por Hannah. Ela não está depressiva. Ela não quer se suicidar. Ela só não aguenta mais conviver com tudo isso. Daí, que é preciso mudar um pouco o foco do nosso entendimento da série. Não é sobre vingança como vi muita gente escrevendo por ai. Ela não quer se vingar de nada. Ela quer entender os porquês disso tudo acontecer com ela. Ela não é uma sociopata (!!!!!) como também li algumas críticas. Ela é uma adolescente com toda uma vida pela frente que descobre cedo demais como o mundo pode ser cruel com mulheres que não se submetem aos seus desmandos. Hannah rompe com o silenciamento que é imposto às mulheres. Ela fala. Ela dá nome aos bois. Ela tenta. Mas infelizmente acaba por não encontrar saídas. Que sim existiam. Mas ela é uma adolescente. E essa fase tudo se amplia, se complica e parece que não existe uma outra possibilidade. Hannah não é uma suicida. Ela é alguém que foi esmagada em sua mais profunda sensibilidade. E suas treze fitas não é um acerto de contas. É um chamado para a conscientização. Precisamos disso. Precisamos colocar a boca no trombone e falar dos abusos que nos são impingidos. Fale! Fale! Fale! Por isso não acredito que a série romantize o suicídio. Mas de jeito nenhum. Reparem na jornada de Jéssica, outra personagem feminina da série, e vejam como é sobre isso também. Romper com o silenciamento. Elas são parecidas. Passaram por situações parecidas. E o final da personagem conversando com o seu pai sobre o estupro que ela sofreu é de arrepiar os pelos do corpo inteiro. Quem já passou por um abuso sexual sabe o quanto é complicado falar sobre isso com alguém. Medo. Vergonha. Nojo. Repulsa. Culpa. Muita culpa. Tudo isso passa pela cabeça da pessoa abusada. E falar sobre isso é um processo libertador. A jornada de Jéssica é exemplar nesse sentido. Justin também é outro personagem que passa por uma conscientização dolorosa. Ele é o menininho bonito da escola, aquele que todas as meninas querem exibir como troféu. No começo é só mais um babaca, mas pouco a pouco suas fichas vão caindo. A cena em que ele é expulso de casa pelo namorado machista da mãe, que o agride, humilha é o retrato fiel de quem ele se tornará se não mudar urgentemente de comportamento. E ele se vê ali. Vê toda a merda que poderá vir a seguir. Também vê sua mãe ali, submissa, imóvel, inábil, destruída emocionalmente, mas escolhendo aquele homem abusivo em detrimento do filho ainda adolescente. É chocante! Até mesmo Bryce (que não tem como defender suas ações) é um garoto a quem não foi dado nenhum limite. Menino rico, melhor esportista da escola, os pais dele estão sempre viajando e nunca aparecem na série. No fundo, é tudo sobre privilégios e consequências desse machismo em nossa sociedade.


"Sonhe grande, eles dizem. Mire alto. Depois eles nos trancam por 12 anos e dizem onde sentar, quando fazer xixi e o que pensar. Então fazemos 18 anos e, mesmo que nunca tenhamos pensado sozinhos, temos que tomar a decisão mais importante de nossas vidas."
 
Os pais retratados na série não fazem ideia de quem são seus filhos. Ou são omissos ou superprotetores. E tanto um quanto outro comportamento podem produzir filhos imaturos, dependentes, com baixa autoestima, ansiosos, depressivos. Os diretores, orientadores e professores da escola não possuem qualquer empatia com os adolescentes. São mundos paralelos que não se encontram jamais. Todos (adultos e adolescentes) parecem ter que dar conta de seus problemas sozinhos. Não há interação possível. Não há liberdade. Não há diálogo. Nada! É assustador! E o mais triste de tudo isso é a série se passar num ambiente escolar. Escola essa que deveria educar meninos e meninas para a liberdade, mas só repetem clichês, sem nenhuma possibilidade de mudança. Porque no fundo não há interesse de mudança. Durante todos os episódios me peguei pensando numa frase do Paulo Freire que define a série pra mim e com ela encerro meu texto:

”Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se opressor”.





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

05 abr/17

Big Little Lies - Crítica

postado por Mateus Barbassa



Confesso que comecei a assistir “Big Little Lies” por causa do elenco. Pensa numa série com Nicole Kidman, Laura Dern, Reese Witherspoon e Shailene Woodley... Mas a trama é tão fabulosa que do nada você se pega refém daquele universo, tentando entender e proteger aquelas personagens. Tudo acontece em dois planos narrativos: o presente e o passado. Quando a série começa sabemos que aconteceu um crime, que alguém morreu e que está ocorrendo uma investigação para se descobrir quem matou. Mas não sabemos nada. Nem mesmo quem morreu, como morreu, nem quem matou. NADA! No passado, acompanhamos a rotina de cinco mulheres até o acontecimento. São elas:

Madeline, casada com Ed, mãe de duas meninas (uma delas já adolescente com o primeiro marido Nathan). Ela é esquentada, gosta de se envolver nos rolos dos outros e extremamente amiga, daquelas que se pode contar pra tudo.
 
Celeste, casada com Perry, mãe de gêmeos. Aparentemente tem um casamento perfeito e invejado por todos. Abandonou a carreira de advogada para cuidar do marido e dos filhos.
 
Renata, casada, mãe de uma menina. É uma executiva de sucesso. E se culpa por não poder se dedicar à educação da filha como gostaria. É superprotetora e agressiva quando mexem com sua família.
 
Jane, cria um filho sozinha. É a única pobre das mulheres. Chega meio que fugida na cidade. Tem um passado nebuloso.
 
Bonnie, é casada com o ex-marido de Madeline. Mãe de uma menina. É a mais alternativa das mulheres.
 
Importante salientar que as crianças estão todas na mesma faixa de idade e estudam juntas na mesma escola e classe. E todo o rolo acontece no primeiro dia de aula quando a filha de Renata acusa o filho de Jane de machucá-la. Renata que não é muito querida pelas outras mães faz um escândalo e exige que o menino se desculpe publicamente. Ele se recusa e a balbúrdia está feita. As mães dos outros alunos se dividem e até mesmo uma petição pedindo a expulsão do garoto da escola é iniciada. A briga das crianças acaba por revelar ressentimentos escondidos daquelas mães e pouco a pouco vamos sabendo mais das pequenas grandes mentiras daquele local.
 
Na excelente abertura da série já dá pra sacar muita coisa. Somente as mães aparecem dirigindo os carros que irão levar seus filhos para a escola. Os pais são omissos e parecem não fazer questão de participar da vida escolar das crianças. O quebra-cabeça que a série nos propõe exige paciência. Tudo vai sendo desvelado aos poucos. E o que posso dizer aqui sem incorrer no risco de soltar spoilers é que é uma das séries mais incisivas sobre as variadas formas de violência contra as mulheres já vista. Incrível a habilidade dos roteiristas, diretores e elenco de contar essa história de maneira tão realista. O cenário é paradisíaco e as mansões dos personagens são cinematográficas. Mas tudo está ali com um propósito muito bem definido. Aquelas mansões são fachadas que escondem as fissuras dos personagens que as habitam. Tudo é um jogo de cena. E nada é o que parece. A hipocrisia reina e todos têm muito a esconder. O que faz com que tudo fique ainda mais emocionante de se acompanhar.


 
É preciso que se diga que é louvável que uma série se proponha a esmiuçar os meandros das relações amorosas e familiares com essa coragem e ousadia. É uma obra feminista como poucas vezes se viu. São 5 protagonistas femininas com seus dramas. São tramas que discutem abertamente as conseqüências nefastas da socialização machista e misógina dos homens. Nem mesmo as crianças estão isentas. É chocante! No domingo (02 de abril) a HBO levou ao ar o último capítulo e eu simplesmente fiquei sem ar o episódio inteiro. Vou repetir: É chocante!
 
Sei que vou chover no molhado, mas o elenco inteiro dá um show. Mas o destaque absoluto é para a composição da atriz Nicole Kidman. Que performance!!!! É impossível ficar indiferente a sua história. A trilha sonora é uma personagem do enredo. É maravilhosa! Olha, vou parar por aqui, do contrário vou ficar elogiando, elogiando, elogiando. Se você ainda não viu, pare tudo que você está fazendo e veja! São apenas 7 episódios de 50 minutos cada. Vale muito a pena! Queria poder escrever mais coisas, mas sinto que revelaria trechos importantes do enredo e não quero estragar a experiência de quem não viu. Agora, se por acaso, você já assistiu, peço por favor, vamos conversar sobre? HAHAHAHAHA





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

02 fev/17

Manchester à Beira-Mar - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa




“Meu coração estava quebrado. Será sempre quebrado. E eu sei que o seu também está quebrado. Mas eu não preciso carregar...”
 

“Manchester à Beira-Mar” é um filme anti-catártico, minimalista e frio sobre um tema que é conhecido por todos nós: como continuar vivendo diante da perda de alguém que você ama? Daí que a obra resulta num quase tratado psicanalítico sobre a dor. É um filme angustiante. Lee, personagem principal, interpretado com uma contenção assustadora pelo ator Casey Afleck, é um homem traumatizado por perdas que se encontra bloqueado para a vida. Mas quando o filme começa não sabemos exatamente os porquês. E assim ficamos por um bom tempo. O diretor Kenneth Lonergan só vai nos entregar o que aconteceu lá pelo meio do filme. O choque diante dos acontecimentos que fizeram com que esse personagem se isolasse do mundo é brutal. Tudo se encaixa nesse momento. Lee é então dominado pela pulsão de morte. A agressividade que demonstra em alguns momentos já é um indicativo desse comportamento. Sua pulsão de vida se encontra completamente paralisada naquele acontecimento trágico. É então que um outro acontecimento trágico colocará o personagem novamente na mesma cidade em que tudo aconteceu. Seu irmão morre e deixa um filho adolescente. Lee é indicado como tutor do garoto. Ele reluta, mas acaba aceitando a função por um tempo. Apesar de não investir em nenhuma mensagem edificante, Lee aos poucos vai restabelecendo pequenas ligações amorosas com o sobrinho e consigo mesmo. Isso é pulsão de vida!!!! Mas sua compulsão por ficar repetindo, relembrando e cutucando suas memórias ainda está muito presente. Fazendo com que mergulhe num estado depressivo. O que mais assusta é perceber como o tempo o modificou. De um homem amoroso, alegre e expansivo para um zumbi. Sua tendência de percorrer o mesmo caminho fará com que ele tente fugir o tempo todo da missão delegada pelo irmão. Além disso, vemos também certa resistência por parte dele de ressignificar a relação com o sobrinho. Como disse, é uma obra bastante psicanalítica, o conceito de recalque serve bastante aqui também. Lee é um homem atormentado por suas lembranças que tenta de todas as maneiras bloquear que suas memórias venham à tona, mas que obtém um prazer mórbido de relembrar o acontecimento trágico. E tome culpa, silêncio e solidão. Freud no artigo "Recordar, repetir e elaborar" escreve que toda repetição é uma necessidade de resistência, mas que o recalcado nunca renuncia à busca da satisfação do desejo. Sim. Lee é um masoquista.
 
“Pois é possível reconhecer, na mente inconsciente, a predominância de uma "compulsão à repetição", procedente dos impulsos instituais [pulsionais] e provavelmente inerente à própria natureza dos instintos [pulsões] – uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio do prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu caráter demoníaco.”


 
No entanto, tem algo nesse personagem que nos mostra exatamente o oposto. “Toda coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser”. A frase de Espinosa também nos mostra uma possibilidade que passa pela cabeça do personagem. De uma forma bastante torta, ele busca o encontro. E o filme é sobre isso. Sobre as tentativas de um possível encontro entre humanos. Estamos todos machucados. E aquele que ainda não está, um dia estará. Esse componente humano nos une. Mas alguns temem aquilo que há de mais essencial em nós. Outros enfrentam, mesmo que às lágrimas e titubeante como a personagem da ex-mulher de Lee vivida com brilhantismo arrebatador por Michelle Williams. A frase que coloquei no início desse texto é dito por ela num dos momentos mais intensos do filme e de forma bastante explícita mostra essas duas maneiras de lidar com a dor. Ela verbaliza sua dor, enquanto Lee foge. Ela quer almoçar com ele, mas ele foge da possibilidade do encontro.



”Você não pode simplesmente morrer. Querido, eu quero que você seja feliz. Eu te vejo andando por aqui e eu só quero dizer (...) Eu só quero lhe dizer que eu estava errada. Eu quero dizer isso. Eu posso fazer isso.”
 
Talvez um dos aspectos mais belos de “Manchester à Beira-Mar” venha exatamente do confronto entre essas duas forças e de ausência da necessidade usual de um final feliz. Quando perguntaram ao diretor por que o filme não tinha um final feliz óbvio, ele deu a seguinte declaração:

“Essas coisas acontecem a algumas pessoas, e elas não conseguem superá-las, e eu acho que essas pessoas também merecem um filme”.

É isso! Exatamente isso! E o mais assombroso de tudo é perceber como a morte do irmão e seu plano de colocar Lee como tutor de Patrick o trazem de volta à vida. Belíssimo filme!





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

16 jan/17

Mate-me por favor - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa




“Mate-me por favor”
é um filme estranho. Cru. Cruel. Incômodo. Extremamente simbólico e ao mesmo tempo realista. É uma confusão de gêneros, não se prendendo a nenhum deles. É uma obra provocativa, delirante, rodrigueana. Que retrata o universo adolescente e sua sexualidade sem rosto, despidos dos maneirismos ficcionais tão característicos. É uma obra assumidamente pós-dramática onde cada aspecto do filme é importante. Luz e som aqui ganham dimensão de personagens quase principais. É um cinema climático sim, mas que assume isso de uma maneira a la David Lynch. O filme toca em temas absurdamente contemporâneos e é assustador constatar que estamos todos imersos nesse contexto, nesse rescaldo cultural, midiático e político. Em que nos transformamos todos em zumbis, condenados à uma indiferença brutal. Ao contrário de alguns críticos que acusam o filme de ser excessivamente formalista, acredito que por trás de todas as cenas o que está presente é uma crítica bastante contundente ao desaparecimento de algo que não sabemos direito o que é. Parece que todos nós perdemos algo que já não lembramos mais o que é. Não somente no âmbito individual, mas no social também. Há um desespero por achar algo que dê algum significado para esse vazio todo que nada nem ninguém parece ser capaz de aplacar. E é aqui que o filme faz sua crítica mais contundente. Estamos nos transformando todos em psicopatas. Uma legião de psicopatas. Incapazes de sentir qualquer coisa, mas buscando um êxtase delirante prometido que não vem, não virá, nunca. Como muito bem definiu Baudrillard, já não estamos mais na crise, mas em plena catástrofe. Não estamos mais na falta, mas na saturação.



”Tantas coisas são produzidas e acumuladas, que nunca mais terão tempo de servir. (...) Tantas mensagens e sinais são produzidos e difundidos, que nunca mais terão tempo de ser lidos. Sorte nossa! Porque a ínfima parte que absorvemos já nos põe em estado de eletrocução permamente.”

Isso tudo Baudrillard escreve em 1990. Pasmem!!!!! Fico imaginando o que ele escreveria vendo-nos absorvidos pelos celulares, propagando notícias que nem sequer lemos no facebook, ou perdidos no meio de tantas opções nos canais de televisão e serviços de streaming, pulando de relacionamento em relacionamento na esperança de achar alguém que valha a pena depositarmos todas as nossas fichas.



”Todas essas memórias, todos esses arquivos, toda essa documentação que não consegue dar à luz uma ideia; toda essa documentação, programas, decisões que não conseguem dar à luz um fato...”

Esse é o estado que vivem aquelas personagens. Há desencanto, desalento, uma espécie peculiar de desespero nos gestos de cada uma delas. Estão presas em suas liberdades que não sabem usar. O funk, o sexo, a igreja, evangélica e até mesmo os poemas de Augusto dos Anjos ajudam a compor esse ambiente fatalista.




Tudo é exacerbado. Propositalmente saturado. Compondo assim um retrato (sur)real e cru(el) de uma nova espécie de violência “oriunda do paradoxo de uma sociedade permissiva e apaziguada”. Quem é a vítima? Quem é o algoz? O mais perturbador disso tudo é que já nem sabemos mais como enunciar isso. “Somos todos cúmplices na espera de um roteiro fatal, mesmo se ficamos emocionados ou transtornados quando ele se realiza”.  Belíssima e provocativa estreia de Anita Rocha Silveira.





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

11 jan/17

Animais Noturnos - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa




TEM SPOILER! SE VOCÊ NÃO VIU O FILME, NÃO LEIA!

Diferentemente de “Elle” que é um estudo de um personagem especifico vivido com imenso brilhantismo por Isabelle Huppert, “Animais Noturnos” é um filme que mostra a sociedade como ela é: misógina e vazia de sentido. Não é um filme sobre vingança. Esqueça! É a história de um cara que não aceitou levar o “não” de uma garota. Sim. Conhecemos tantas dessas histórias por aí... Mas vamos do começo! Susan é uma garota idealista que namora um jovem escritor sem eira nem beira. Sua mãe é a responsável por reproduzir todos os ensinamentos de uma sociedade machista. Fragilizando-a e fazendo com que ela titubeei em suas decisões. Essa é a socialização feminina. Você é frágil e depende de um homem forte ao seu lado que te sustente financeira e sentimentalmente. Susan nega, debate, fulmina a mãe com o olhar, mas o peso daquelas palavras passam a acompanhá-la como uma espécie de fantasmagoria. Ela já não enxerga no seu namorado mais as mesmas qualidades de outrora. Ela engravida e se dá conta de que aquele homem não conseguirá suprir suas necessidades de afeto e também de dinheiro. Ela conhece um carinha lindo e rico que sua mãe com certeza aprovaria. Termina o relacionamento com o antigo namorado jogando na cara dele todos os ensinamentos de sua mãe (leia-se sociedade machista patriarcal). Ela aborta o filho que esperava dele apoiada pelo novo namorado. Mas enquanto estão no estacionamento da clínica são flagrados pelo pai da criança. Dezenove anos se passam... Ela está num casamento infeliz com o bonitão e rico namorado de adolescência. Transformou-se numa marchand renomada, mas que não vê muito sentido nas coisas. Entope-se de remédios pra dormir e é traída na cara dura. Um belo dia... Ela recebe uma encomenda em casa. É o manuscrito de um livro escrito por seu antigo namorado. O livro se chama “Animais Noturnos” e é dedicado a ela. Mais tarde saberemos que o nome que dá título ao livro era o apelido que ele a chamava por ela ter dificuldades para dormir. Em linhas gerais, o livro conta a história de uma família feliz (mamãe, papai e filhinha adolescente) que estão indo viajar para o Texas e que são importunados por uma gangue na estrada. Eles batem no pai. Sequestram, estupram e matam a mãe e a filha. Tony sobrevive e busca justiça e encontra no delegado local, que está prester a morrer de câncer, muito mais que isso: vingança. O tempo passa. O delegado consegue prender os responsáveis pelos crimes, mas são soltos porque não se tem provas suficientes para incriminá-los. O delegado propõe um plano e o tal homem injustiçado aceita. Eles perseguem os criminosos e levam-nos para um lugar distante. O delegado coloca uma arma na mão do pai de família que não consegue atirar neles. Os bandidos fogem. Na perseguição, o delegado mata um dos bandidos e depois se separam. Tony recebe uma arma e passa a procurar o algoz de sua família. Acha. Diante dele, vacila mais uma vez e é golpeado, mas antes consegue atirar duas vezes no bandido. Horas depois, acorda bastante ferido e morre. Sua morte não fica evidente se aconteceu por descuido ou suicídio. Fim do Livro. Susan fica absolutamente fascinada e aterrorizada pelo que lê. Tanto que escreve um email com loas para o ex, inclusive chamando-o para um encontro. Ele aceita. Ela se arruma toda. Ela espera durante horas por ele que não aparece. Fim do filme!



Desculpe o resumo, mas era necessário para mostrar o quanto as socializações que recebemos desde a infância por mais que não nos damos conta acabam por dominar nossas decisões. De Edward é exigido que ele seja forte, que sustente e proteja sua família. De Susan, que seja frágil e submissa ao marido. Eles simplesmente não se encaixam nesses esteriótipos de gênero. E sofrem com as pressões necessárias para que se tornem aquilo que se espera deles. Dezenove anos depois, a formatação está pronta. Ele culpa-a por todo o mal. Ela se ressente e aceita essa culpa. Ele se torna forte e ela se fragiliza e busca nele aquilo que acredita ter perdido. Ele nega. Ela fica sozinha. Sim, porque agora ele aprendeu a lição e matou aquele antigo homem com o livro. E todos sabemos que a socialização masculina se baseia na dominação e nos privilégios em relação às mulheres. Preste atenção nos homens do filme! Olhe o atual marido de Susan e o da amiga dela que aparece numa festa. A todo o momento, Susan parece receber um ensinamento de como se sujeitar ao mundo como ele é e nunca questionar. Essa é a socialização feminina. Agora olhe as mulheres do filme! São escravas da estética e aprendem que precisar se adequar aos padrões para serem aceitas e ou amadas. Simone de Beauvoir definiu muito bem o processo civilizatório de uma mulher:



“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”.
 
O filme é assombroso em mostrar o peso dessas socializações na vida prática de homens e mulheres, inclusive tem uma cena assustadora de uma colega que trabalha com Susan que acabou de ter uma filha e que para se sentir mais próxima da criança e poder vigiar a babá, instala um aparelho onde ela pode acompanhar tudo o que acontece a distância. Susan dá uma olhada no celular da moça e vê algo ali que nos faz dar um pulo de medo. É um aviso! Um doloroso aviso às mulheres!





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema
 

05 jan/17

A Bruta Flor do Querer - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa






“Quem nunca projetou todos os sonhos numa pessoa que nem conhece. Em outras palavras, quem nunca usou essa perigosa droga chamada amor platônico”.

 
 
“A Bruta Flor do Querer” é um filme contemporâneo. Fala sobre nós. Sobre a juventude que Baudrillard definiria como pós-orgia. Onde tudo aparentemente está liberado mas ainda encontramo-nos todos perdidos diante da tal pergunta: O que fazer com esse tédio monumental que vem seguido da orgia? No filme cujo diretores escreveram o roteiro, bolaram a iluminação e a excelente trilha sonora e ainda atuaram como protagonistas, vemos dois amigos diante da realidade do mundo atual. Eles até tinham sonhos, mas a urgência dos dias e a necessidade de sobrevivência cobram seu preço. Diego acabou de concluir a faculdade de cinema, já fez alguns curtas, mas se vê tendo que gravar casamentos para ganhar algum dinheiro. Sua vida pessoal também vai de mal a pior. Acalenta uma paixão platônica por uma menina que trabalha no sebo que ele freqüenta, mas não tem ideia de como trocar qualquer palavra com ela. Seu melhor amigo é outro que parece não ter grandes perspectivas. Ouve seus desabafos amorosos, aconselha às vezes, mas nada além disso. Os dois usam muita droga para aplacar alguma melancolia mal resolvida e vivem atrás de pegar mulher. Seus diálogos são rasos, quase sem nenhuma eloquência, soando como monólogos ou fluxo de (in)consciência. De forma bastante contundente, o que nos é apresentado é um registro do estado das coisas enquanto elas acontecem. É um filme duro, cru, obsessivo, fétido, pestilento. Diego é atormentado pelo fantasma da mulher independente que não lhe dá moral e personifica todas as suas frustrações amorosas e seus medos em Diana. Em seu delírio, chega a enxergá-la como sua oponente numa luta de boxe. Ela o massacra. Sua socialização machista não permite que ele a enxergue em sua totalidade. Ele precisa idealizá-la para sobreviver. Ela é mais um de seus vícios. Ele vive num estado de simulação em que já não é mais possível distinguir o que é real do que é não é. Assim como nós (espectadores) também não conseguimos decifrar direito o que é ficção e o que é documental no filme. Essa hibridez é fascinante e corrobora para o entendimento de que estamos no território do simulacro.



”Quando as coisas, os signos, as ações são libertadas de sua ideia, de seu conceito, de sua essência, de seu valor, de sua referência, de sua origem e de sua finalidade, entram então numa auto-reprodução ao infinito. As coisas continuam a funcionar ao passo que a ideia delas já desapareceu há muito. Continuam a funcionar numa indiferença total a seu próprio conteúdo. E o paradoxo é que elas funcionam melhor ainda”.

Recorro novamente a Baudrillard para tentar dar conta da urgência que a obra me causou. “Qualquer coisa que perca a própria ideia é como o homem que perdeu a sombra – cai num delírio em que se perde”. Mas acho que o que o filme retrata é algo ainda pior. São homens que se transformaram em suas próprias sombras. Fantasmas de um mundo perdido. Que até tentam enxergar algum significado nisso tudo, mas falham miseravelmente. Impossível não fazer uma leitura sobre os sexos e gêneros diante do que é apontado na obra. Os dois amigos e todos os outros homens retratados no filme possuem aquela inabilidade afetiva típica. Parecem não enxergar nada nem ninguém diante dos seus olhos. Vêem aquilo que querem ver e só. É assustador! Falta-lhes empatia. Um olhar mais atento pra si próprios e para os outros. Mas estão cegos demais, anestesiados demais para tal intento.



Já as mulheres parecem não aceitar mais esse tipo infantilizado de homem, a não ser para uma transa ou uma ficada na balada. Diana não quer nada com Diego. O amigo foi traído e abandonado pela namorada. E assim vai. Estranhos que eventualmente podem até trocar saliva e porra, mas que acaba ali. Não tem nada além de uma sexualidade sem nome ou rosto. O problema é que todos (homens e mulheres) fomos socializados para essa necessidade de ter alguém e esse vazio provoca ainda mais sofrimento. Ficamos então nesse estado em que as coisas parecem não possuir início nem fim, apenas meio. Algo que nunca começa nem termina direito, mas que também impede que  qualquer outra coisa surja. Repito, é assustador!





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

09 dez/16

Heartstone - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa



A cena inicial do filme “Heartstone” é sintomática. Estamos na Islândia. Alguns garotos estão esperando para pescar peixes. Um deles avista um cardume. Todos pegam suas iscas. Eles pescam alguns peixes. São extremamente violentos para matá-los. De repente, um deles pesca um peixe-pedra. Um bicho de aparência horrível. Eles chutam, pisam, esmagam o animal. É sobre isso que fala o filme. Sobre essa espécie de horror que o diferente causa. Essa socialização marcada por princípios estruturantes daquilo que se supõe ser masculino e heterossexual já faz parte do cotidiano daqueles garotos, mesmo que não tenham se dado conta. Eles estão sempre brigando, batendo em algo ou alguém, se bolinando, masturbando, se agredindo, se xingando. Mas a sociedade vigia meninos e meninas, exigindo capacidades, características e qualidades diferentes de ambos e produzem medo distintos também. Se os meninos temem ser vistos como gays, as meninas sofrem com o estigma de putas. É tudo sobre sexo. É tudo sobre não ser mais visto como digno de respeito ou admiração. Esse cenário padronizado de sexualidade produz muito sofrimento, já que somos máquinas desejantes e ficamos divididos entre seguir nossos desejos ou se encaixar naquilo que a sociedade espera de todos. Um rumor de que o pai de alguém deu em cima de um outro homem, a dificuldade de lidar com os parceiros sexuais da mãe ainda jovem, que é taxada de puta pelos moradores e próprios filhos, cumprem o papel de alertar os mais novos. Quem ousar sair dos papéis previamente definidos (no momento em que o médico disse o sexo do bebê) sofrerá as conseqüências. O filosófo e pensador queer Paul Beatriz Preciado escreveu que “se você não é heterossexual, é a morte que te espera”. Essas normas regulamentam o desejo de todos e são passados de geração em geração, com o auxílio dos filmes, novelas, músicas, escolas, igrejas, etc, etc... Mas o que fazer com o desejo?



Thor e Christian são amigos e estão naquela fase de se descobrirem sexualmente. Dão em cima de duas garotas e até começam a ter algum envolvimento com elas. Mas um deles se descobrirá apaixonado pelo amigo. Como lidar com a situação? Existem muitos filmes com essa temática, mas esse se destaca pela maneira com que mostra essa descoberta e suas conseqüências. É um filme poético, de delicadas metáforas. A cena final (que não revelarei aqui) se casa perfeitamente com a do início e é uma das mais fortes e belas que já vi. “Heartstone” se transforma assim num filme de resistência, num grito desesperado debaixo d’água de um garoto que se descobre diferente dos demais. É um final interessante que se coaduna com o pensamento da filósofa Judith Butler: “As normas nos dizem o que devemos fazer para ser um homem ou uma mulher. Nós devemos a todo instante negociar com elas. Alguns de nós as adoram e as encarnam apaixonadamente. Outros a rejeitam. Alguns detestam mas se conformam. Outros brincam de ambivalência... Eu me interesso pela distância entre as normas e as diferentes formas de se responder a ela.”



Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema
 

27 nov/16

A Chegada - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa




"Precisamos ensinar a diferença entre uma arma e uma ferramenta. As coisas podem ficar confusas quando o mesmo objeto pode ser usado de ambas as formas."

Se na história bíblica, as múltiplas linguagens foram criadas por Deus para confundir os humanos, em “A Chegada” são decifradas para unificar os povos. Se outrora era punição, agora se torna a única possibilidade de salvação. Sim. O diretor Dennis Villeneuve concebe uma obra com ares mitológicos. Uma Torre de Babel hipercontemporânea às avessas. Não é algo para se levar ao pé da letra. É metáfora. É metonímia. É hipérbole. É alegoria. Se Baudrillard estiver mesmo com a razão e estivermos vivendo numa amnésia de imagens, onde quanto mais falamos sobre as coisas, menos elas existam, então, é chegada à hora de resgatar o significado das palavras, ressignificando assim o sentido de estarmos vivos. Palavra não mais como verbo, mas como carne. Por não vivermos no presente, não podemos adivinhar o futuro, nem justificar o passado. Esse talvez seja nosso erro. Não vivemos a história enquanto história. Habitamos uma espécie de limbo individual e coletivo que “ecoa” às relações mediatizadas, como numa singular Caverna de Platão. Somos todos ainda prisioneiros dessa tal caverna. Apegados às tradições, aos hábitos, aos falsos julgamentos, aos limites dos nossos país e conhecimentos, esquecemos que é necessário sim botar a cara no sol, botar nosso bloco na rua e se dar conta que a vida é maior que o que a gente supunha. Essa ritualística é necessária para se confrontar com a alteridade. Onde o outro é também eu, refletido nesse espelho de palavras, olhares e afeto.



“A Chegada” é exemplar em demonstrar como a sociedade se perde nessa ânsia de aniquilar aquilo que não entende logo de cara. Daí que aqueles alienígenas podem ser tantas coisas. O que justificaria o estado de violência latente no mundo. Aqueles alienígenas podem ser mulheres numa sociedade misógina e patriarcal. Podem ser negros convivendo com o racismo institucionalizado. Gays, travestis e transexuais expulsos do “paraíso” e mortos (primeiro de maneira simbólica e depois concretamente). Podem representar a questão dos imigrantes ilegais. E tantas e tantas outras coisas. E é por isso que se faz necessário retomar algumas perguntas suscitadas por Baudrillard: Onde está a alteridade? Qual é o Outro? Onde está o Outro? O Outro se transforma em nossa destinação fatal. "O Outro é o que me dá a possibilidade de não me repetir ao infinito". Essa é a beleza de um filme como esse. Ao resgatar o significado das coisas e da memória, estanca o estado de apagamento da História que estamos vivenciando.




Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

21 nov/16

ELLE - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa




“A vergonha não é um sentimento suficientemente forte para nos impedir de fazer o que quer que seja”.
 
“Elle”, filme de Paul Verhoeven é um complexo estudo de personagem. Michèlle vivida com brilhantismo e coragem pela atriz Isabelle Huppert é a alma, o corpo e o cérebro dessa obra bastante controversa. Ao mesmo tempo em que o diretor brinca com as várias possibilidades de uma personalidade como a da protagonista de seu filme, a coisa pode ser muito mais “simples” que parece. Como disse Verhoeven parece não querer fazer um estudo sociológico, mas uma obra sobre aquela mulher específica. Tirar esse contexto pode acabar com todo o enigma. Sim. Quando digo que a coisa é muito mais simples, quero dizer que é tudo sobre sedução. E como já nos alertou Baudrillard, a sedução nunca está ligada aos sentimentos, mas à fragilidade das aparências. Não obedecendo nenhuma moral, sendo de espécie do pacto, do desafio e da aliança. E concluí que a sedução é francamente perversa. Ora, não é exatamente isso que não só as personagens, mas também o diretor fazem? Não há como jogar sem o outro. Mesmo que o outro seja uma máquina. E nesse ponto, o fato de Mìchelle ser proprietária de uma empresa que cria jogos ultraviolentos de videogame não é mera coincidência... Muito pelo contrário, faz parte do desenvolvimento do jogo entre a personalidade de Michèlle e nós. Esse é o enigma. E por isso, posso afirmar com tranquilidade que “Elle” não carrega significados sociológicos, nem almeja nenhuma “solução”. Pelo contrário. Ao fim, o enigma continua intacto. Por mais, que aqui ou acolá consigamos tocá-lo em algum momento, o que interessa “é frustrar o poder erótico pelo poder imperativo do jogo e do estratagema – preparar as armadilhas na própria vertigem e mesmo no sétimo céu guardar o domínio dos caminhos irônicos do inferno – esta é a sedução”. Isto é Ella.





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

08 nov/16

A Garota no Trem - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa




Esqueça a maioria das coisas que você leu a respeito do filme “A Garota no Trem”. Sim. Isso mesmo. O filme é muito mais que um suspense clichê no estilo “quem matou?”. É um filme de terror. É uma das mais devastadoras críticas às conseqüências de um relacionamento abusivo. Está tudo lá. E é chocante! A socialização de homens e mulheres é um dispositivo de produção de feminilidade e masculinidade que tem sua origem no instante em que o médico no ultrassom ou no nascimento do bebê diz as tais palavras mágicas (é um menino ou é uma menina). A partir desse instante toda a vida daquela criança já está traçada. Só com essa informação é possível definir qual será a cor de seu quarto e de suas roupinhas, que tipo de brinquedos poderá brincar, qual comportamento esperado socialmente, que tipo de pessoas se relacionará e assim por diante. Tudo baseado em meras invocações performativas responsáveis pela manutenção de uma heterossexualidade compulsória. Aprendemos com isso que tudo que é masculino é racional, corajoso, competitivo. Já o feminino seria a encarnação da passividade, da emotividade, da doçura, submissão e dependência masculina. Tudo isso já está pronto desde o dia que nascemos. E isso tudo nos é transmitido de maneira sutil por todas as esferas da sociedade. Está nos discursos e ações de nossos pais, da mídia com seus filmes, novelas, músicas e contos de fada, etc, etc, etc. Tudo isso com uma única finalidade, fazer a manutenção da hierarquia e alimentar e proteger as relações de poder existente entre corpos tidos como masculinos sobre os tidos como femininos. Daí que “A Garota no Trem” nos confronta o tempo todo com nossas noções de padrão de gênero. As mulheres retratadas no longa são o reflexo dessa educação castradora. São dependentes, manipuladoras, carentes, se vêem umas às outras como rivais, enquanto o homem representa a noção de liberdade e fortaleza. Mas o quanto dessa noção não é criada pela e na sociedade para gerar uma ilusão de estabilidade? Outro dado importante explicitado no filme é o quanto à noção de maternidade é extremamente nociva para a mulher. Há uma romantização e uma pressão para que a mulher gere filhos que é alimentada desde a infância através de tecnologias e dispositivos como bonecas, utensílios domésticos e discursos. Sim. Caberá ao feminino não ter outros objetivos além de ser mãe ou então colocar seus planos em pausa, ou ser eternamente cobrada por suas escolhas. E o filme coloca todas essas questões de maneira bastante contundente. Se paga o preço sempre, seja por escolher ter ou não filhos. Essa naturalização da maternidade provoca efeitos contraditórios nas mulheres. Elas carregam, sofrem e disseminam preconceitos baseados tão somente em ideais do que é ser ou não ser mãe. Vem daí o mito de que só se pode ser uma mulher plena e realizada quanto se tem filhos e o de mulher infeliz e solitária quando não se tem. Mas poucas mulheres possuem a coragem necessária para falar sobre o peso que representa essa questão. É algo velado. Que deve ser escondido. Motivo de vergonha. Deve-se sofrer calada. Afinal, esse foi o seu papel desde sempre, por que você não está conseguindo executá-lo como deveria? Isso é uma forma de abuso. E muitas mulheres relatam que seus casamentos desmoronam depois que têm filhos. Mas não se engane. Essa não é a única forma de abuso retratado no filme. Outra ainda mais cruel é apresentada pelo filme. De uns tempos pra cá, uma palavra em inglês foi sendo incorporada ao nosso vocabulário, sobretudo na internet e nos blogs feministas: Gaslithing. “Você é Louca!” Você está exagerando!” Você está mentindo!” “Eu nunca disse isso!” “Você é tão dramática!” “Não dá pra conversar desse jeito!” “A Culpa é sua! “A CULPA É SUA!”

Essa naturalização do descontrole emocional das mulheres é uma forma de dominação masculina. É abuso. E a mulher vai definhando pouco a pouco. Começa a questionar sua sanidade. E perde totalmente qualquer tipo de autoestima. Transformando-se num arremedo de ser humano. E tudo isso é feito de maneira sutil. É um dispositivo machista de controle dos corpos e mentes femininas. Assim, eles podem agir livremente sem qualquer tipo de questionamento. A manutenção dos privilégios masculinos precisa enxergar as mulheres como dignas de piedade. Mas algo vem mudando no mundo. Ainda de maneira lenta, é verdade. Mas muitas mulheres não estão aceitando mais esse lugar criado pelo patriarcado como único referencial feminino. Por isso que é tão interessante que um filme como ‘A Garota no Trem” problematize esses papéis socialmente impostos e tenha um filme tão alentador quanto aquele.





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

14 set/16

MÃE SÓ HÁ UMA - Crítica de Filme

postado por Mateus Barbassa



“Qual o limite para não te perder? (...) De quantas formas você quer que a gente te perca?”


Se em “Que Horas Ela Volta?”, Anna Muylaert concebe um filme absolutamente emocional. Aqui em “Mãe Só Há Uma” pega um caminho oposto. Talvez porque o enredo seja quase novelesco. Não sei. O fato é que aqui a coisa é mais palpável. Corpórea, eu diria. Corpos que se repelem. Corpos que se amam. Que quase se tocam. Que lutam entre si. Corpos que desejam. Corpos que não aceitam a normatividade supersocial. Que questionam rótulos. Pierre é um adolescente de 17 anos que tem sua vida virada de cabeça para baixo quando descobre que foi roubado quando era um bebê pela mulher que se diz ser sua mãe. Começa aqui a trajetória desses corpos desejantes. Um “Quadrilha” de Drummond hipercontemporâneo. Começa com o desejo de Aracy de ser mãe. No filme não fica claro por qual motivo ela rouba não só Pierre como também uma outra menina. Talvez ela tenha querido muito ser mãe e não conseguiu. Mas por que roubar e não adotar crianças? Ela deseja ser mãe ou é uma psicopata sem coração? A motivação importa menos aqui. O que importa é o desejo. E como Deleuze “descobriu” somos máquinas desejantes. E se assim é, todos somos máquinas ou ainda tudo é máquina. E o útero nada mais que uma máquina de fazer bebês. E o que fazer quando essa máquina falha? Quando nosso desejo é frustrado? Talvez Aracy queira acreditar em sua própria mentira. Talvez tantas coisas. E Muylaert acerta em não fechar nenhuma questão.

A questão do desejo também passa pelo desesperos dos pais biológicos em encontrar esse filho sequestrado, de receber dele o carinho roubado durante anos. Mas é aqui que entra toda construção social da sociedade. Como sempre são esperadas algumas condutas socialmente aceitas daquele filho. Pierre é como se fosse um bebê para eles. E novamente o desejo acaba em frustração. Pierre é um garoto com uma sexualidade fluida. Passa batom. Usa calcinha. Vestidos. Pinta as unhas. Transa com mulheres. Beija homens. Em suma, não se encaixa nos gêneros heteronormativos. Judith Butler em seus estudos sobre a Teoria Queer escreveu que mesmo antes de um corpo vir ao mundo ele já é marcado por um gênero denominado inteligível e toda expectativa dos pais e da sociedade viriam daí. Toda a performance esperada pelos pais biológicos de Pierre é essencialmente masculina. Querem que ele goste de futebol, de boliche, de camisa social. Será através da reiteração de atos contrários ao esperado que o garoto vai reconstruindo sua sexualidade. Que é só dele. E essencialmente corpórea e “falha” aos olhos da sociedade. Se tudo para Deleuze é produção, os corpos criam e negam identidade. Identidade aqui em todos os sentidos. Não só de gênero. Quem é aquele garoto agora? Quais são seus referências e afetos se dele foi roubado tudo? E por isso que as perguntas do pai que abre esse texto são tão fortes. Porque a gente quer segurança. A sociedade exige isso. Mas viver é inseguro. Não há segurança nenhuma. Nunca houve. Nem haverá. Tudo porque não existem certezas. E é aqui o maior acerto do filme. Tudo é líquido. Só o afeto construído que não. É ele quem faz com que Pierre tenha vontade de reencontrar a mãe que o roubou ou a irmã que também foi entregue a família biológica? Ou ele também desejaria a segurança de outrora? Ou ao desejar algo que não seja real, ele estaria julgando como insuficiente sua atual realidade? Novamente perguntas que ficam em aberto. Expectativas frustradas também nossas. Talvez inconscientemente também almejamos o novelesco, a fábula. Assim fomos educados. Por isso é tão brilhante que a diretora frustre com quase todas nossas expectativas. Ao negarmos o real, impedimos que o desejo produza novos arranjos. E todos os personagens do filme caem nisso. Há uma cena simbólica nesse sentido. O irmão biológico de Pierre está na escola, é hora do recreio, dois amigos incitam-no a falar com a garota de quem ele aparentemente está gostando. Ele toma coragem e vai. Eles conversam um pouco e garota logo sai. Dizendo não querer ser vista com ele, porque os outros iriam caçoar dela. O garoto fica sozinho no banco. E outra garota senta ali. Eles conversam um pouco. Ela aparentemente gosta dele. Ele abandona a garota com a mesma desculpa que recebera momentos antes. A garota fica sozinha. E chama por um amigo dele. O Amigo senta. Eles conversam. O garoto aparentemente gosta dela. E assim vai... Esse é só um exemplo, mas é recorrente esse estado de desejo como falta quase lacaniana.

Pierre até o momento de ser arrancado de sua vida, agia nesse sentido: produzindo, desestruturando, negando os discursos normativos e as relações de poder. Mas ao se instalar naquela outra casa, algo morre. Metáfora perfeita para o nascimento de uma criança. Que quando nasce já vem ao mundo com uma série de planos dos outros. É isso que fazemos com todos os bebês. Matamos! Matamos seus potenciais! Matamos sua originalidade! Triste! O que pode salvar alguma coisa é ainda a capacidade revolucionária que os corpos possuem de se buscarem, de se quererem. O que pode salvar alguma coisa é o toque e o afeto entre dois quase desconhecidos. Mas não seríamos todos nós desconhecidos não só dos outros, mas, sobretudo, de si mesmos?




Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

12 set/16

AQUARIUS - Crítica do Filme

postado por Mateus Barbassa

“Que tempos são estes, em que temos de defender o óbvio?”
Bertolt Brech
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É impossível assistir “Aquarius” sem pensar nas características de quem possui esse signo no zodíaco. Os aquarianos são libertários e gostam de ser diferente. São daqueles que quando estão todos indo para uma direção, eles vão pra outro lado. Detestam ser iguais. Adoram ser do contra. São rebeldes. Assim é Clara. A protagonista do filme. Clara é tudo isso e muito mais. É uma personagem e tanto. Cravada para os nossos tempos atuais. Clara é resistência. Mas sem perder a ternura. Jamais. É um filme sobre afetos. Sobre a memória. Clara é resiliente. Essa é sua característica principal. Ela não se dobra. Não é boazinha. Não é servil. Ao longo da obra, acompanhamo-la num périplo muito pessoal. Ela só quer continuar morando em seu apartamento de frente para o mar. Ouvindo seus discos de vinil. O problema é que uma construtora comprou todos os outros apartamentos e pretende erguer ali um daqueles mega empreendimentos. Clara recusa todas as propostas e investidas. Como uma espécie contemporânea de Bartleby de Melville responde que “preferiria não”, e por isso, sofrerá as conseqüências. Claro que essas conseqüências nunca se dão no plano da violência física, mas num território absolutamente simbólico. Daí que é muito importante destacar que a maioria dessas violências é praticada por um garoto, neto do dono da empreiteira. Rapaz bonito, cordial, educado no exterior e com um sorriso sempre estampado no rosto. O filme é sobre esses dois Brasis. Diego é um personagem-símbolo assim como Clara. Para Diego não basta apenas ser rico. Ele tem que ostentar. Tem que empreender. E por mais que nossa sociedade seja notoriamente injusta, acredita no mérito pessoal. Ele é o típico filho do dono. E é exatamente por isso que as violências sofridas por Clara nunca se dão fisicamente. Diego acredita no convencimento. A reprodução de toda espécie de privilégio e injustiça social depende dessa legitimação. Numa sociedade capitalista como a nossa, importa mais aparentar ser uma coisa do que ser a coisa propriamente dita. Sim. A tal Sociedade do Espetáculo descrita pelo filósofo francês Guy Debord.
 
”Importa mais do que tudo a imagem, a aparência, a exibição. A ostentação do consumo vale mais que o próprio consumo. O reino do capital fictício atinge o máximo de amplitude ao exigir que a vida se torne ficção de vida. A alienação do ser toma o lugar do próprio ser. A aparência se impõe por cima da existência.”
 
E isso tudo o filme retrata muito bem. O controle da situação está nas mãos de uns poucos que dominam não só o mercado, mas também o campo político e, sobretudo, jornais, editoras, emissoras de televisão, universidades e tribunais. O professor Jessé Souza escreve em seu livro "A Tolice da Inteligência Brasileira" que é o sequestro da imensa maioria dos intelectuais brasileiros pelos donos do poder que cria o clima ideal para o convencimento, legitimação e manutenção das injustiças sociais.
 
"A dominação social material e concreta de todos os dias só efetiva e tende a se eternizar se é capaz de se "justificar" e convencer. E produzir "convencimento" é precisamente o trabalho dos intelectuais no mundo moderno, substituindo os padres e religiosos do passado”.
 
Preste atenção em toda a dinâmica das relações sociais dos poderosos no filme. É sempre o fulano que é filho ou neto de alguém que trabalha nas empresas do pai ou do avô. Essa visão patrimonialista é a gênese de toda desigualdade no nosso país. Aqui é tudo meio misturado. E todas as relações parecem uma extensão de nossa casa. Aqui pra tudo se dá um jeitinho. Diego é o representante desse tipinho desprezível. São os donos do mundo. Aqueles para quem parece não existir nenhuma lei e nenhum impedimento. Outro personagem sintomático nesse sentido é a empregada de Clara cujo filho morreu vítima de um atropelamento e ninguém fez nada. De quantas injustiças como essa é feito o nosso país?  Mas esquecemos com a mesma facilidade que fingimos nos comover. O sistema exige isso. Seja produtivo. Não pense. Trabalhe. Não sinta. Trabalhe. Não ame. Trabalhe. Pra quê? Para manter as coisas como elas são.

O diretor Kleber Mendonça Filho toca o dedo na ferida de nossas raízes e mazelas mais brasileiras. E por isso Clara é tão importante. Somos tão fascinados pelo novo. Já não temos nenhuma memória. Formamos uma legião de desmemoriados. E bregas até o talo. Colonizados até a alma. O nome do suposto novo edifício não deixa nenhuma dúvida disso. Mais do que a capacidade de resistir, o que mais impressiona em Clara é fazer tudo isso com amor e curiosidade. Ela não rejeita o futuro. Seu tempo é o hoje, o agora. Só que isso não significa ter quer abrir mão de sua visão de mundo, de sua experiência. Temos muito que aprender com ela. 



Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

07 set/16

Onde Vamos Invadir Agora? - Crítica de Filme

postado por Mateus Barbassa



“Onde Vamos Invadir Agora?” é um legítimo filme de Michael Moore. Só que mais amadurecido, mas não se engane, o olhar sarcástico para o estilo americano de vida continua ali. Só que dessa vez, há uma importante mudança. Moore não mais mostra as vicissitudes da sociedade americana, mas opta por “invadir” vários países e “roubar” deles boas ideias para alguns problemas dos EUA. É uma grande sacada, pois brinca com a sanha americana por dominar o mundo. E é assim que o filme é levado quase que o tempo todo. É uma grande tiração de sarro, mas ao mesmo tempo, é muito sério. O que mais impressiona no documentário é que as ideias dos outros países para enfrentar velhos “problemas” dos EUA são bastante simples. Não há soluções mágicas. O que existe é apenas um olhar atento para o humano, para o coletivo. A dignidade humana deve ser respeitada em todas as esferas da sociedade. E nesse ponto que nós, brasileiros, podemos ver que somos uma versão piorada dos americanos. Nosso complexo de vira-lata faz com que copiemos até mesmo os erros americanos. O que Moore descobre ao invadir lugares como Alemanha, França, Eslovénia, Noruega, Islândia, Itália ou Portugal é que é possível sim um outro tratamento para assuntos como educação, saúde, trabalho e assuntos “polêmicos” como descriminalização do aborto, despenalização do consumo de drogas, tratamento digno aos presos, corrupção, redistribuição de rendas, igualdade de gêneros e tantos outros. Tudo muito simples. Tudo perfeitamente aplicável em qualquer outro lugar do mundo. Por que então isso não é feito? Ora, cada país possui um contexto sociológico e é aí que o bicho pega. E é aqui também o maior Calcanhar de Aquiles do filme. Esses aspectos não são levados em conta pelo diretor. No entanto, algo fica muito claro em toda a filmografia de Moore, a idealização dos Estados Unidos como terra das oportunidades, da liberdade e da justiça social é à base de todos os problemas elencados pelo diretor. E é justamente essa imagem idealizada da sociedade americana que faz com que países como o Brasil copie esse pensamento liberal. A responsabilização do individuo pelo sucesso ou fracasso de sua vida é uma terrível violência simbólica que passa despercebida nesse tipo de sociedade. É justamente da aceitação dessa espécie de violência que brotam todos os outros problemas. O Calcanhar de Aquiles de Michael Moore é também esse. Ao não levar em conta as devidas contextualizações de cada país, seu filme cai por vezes num simplismo barato. Mas é aqui que o cinismo e a figura do cineasta ajudam a contar essa história. No final das contas, Moore é uma representação do americano médio. Um Homer Simpson, obeso, meio decadente, meio bobão, meio cínico. O que fica como reflexão é que precisamos discutir urgentemente como cada sociedade se percebe. Esse é o ponto fundamental. É a estrutura sob a qual cada sociedade constrói seus mitos que fundamenta todas as outras decisões. E isso fica como responsabilidade nossa. Já que Moore esconde esse aspecto em seu documentário.

29 ago/16

Nerve - Crítica do Filme

postado por Mateus Barbassa



”Nerve” é uma distopia que bebe na fonte de George Orwell, aqui atualizada em reality show online, ao vivo, onde todos participam, sejam como observadores ou jogadores. É preciso decidir logo de cara. É um jogo. Mas vai além. É também uma espécie contemporânea de exorcismo diário com inspiração nas arenas romanas. A velha tática do pão e circo mediatizada pelas telas dos celulares. Sim. Se antes tínhamos o teatro, agora temos as telas. Tudo se torna virtual. Não há mais espaço para ambigüidade. Restando apenas a aparência. O estado de simulacro. A produção incessante de imagens busca transformar-nos numa sociedade permissiva e apaziguada. Essa é a hiper-realidade. O filósofo francês Jean Baudrillard escreveu que todo o paradigma da sensibilidade humana mudou com o advento da informática. Nosso olhar foi afetado por essa intransponibilidade da comunicação abstrata. “Criam assim uma dimensão que já não é exatamente humana, uma dimensão excêntrica que corresponde a uma despolarização do espaço e a uma indistinção do corpo”. Mas, talvez, a metáfora já não sirva mais aqui. Precisamos da lente de aumento. Precisamos da hipérbole. Só ela pode dar conta desse estado de agonia, desespero e tédio. Daí que “Nerve” é uma olhar cínico e desesperançado do nosso presente. O desespero pelo reconhecimento do olhar virtual do outro faz com que aqueles adolescentes arrisquem suas vidas na tentativa de cumprir os pedidos esdrúxulos de uma platéia ávida pelo caos e pelo clichê da beleza. Sim. O que vemos é uma fábula moderna. Uma espécie de Clube da Luta para adolescentes. Um episódio de “Black Mirror”.

22 ago/16

Projeto Cinematerna exibe filme “Um espião e meio” no Shopping Iguatemi Ribeirão Preto

postado por Diogo Branco

Na próxima terça-feira, 23 de agosto, às 14h, as mamães e papais que participarem do Cinematerna no Shopping Iguatemi Ribeirão Preto poderão curtir o filme “Um espião e meio”. O projeto acontece mensalmente, sempre com uma sessão exclusiva para pais com bebês de até 18 meses. Os filmes exibidos em geral são de temática adulta, mas em ambiente especialmente preparado para os bebês.

O longa conta a história de um personagem, Bob (Dwayne Johnson), que antes de se tornar um agente da CIA, foi um nerd que sofria bullying na época do colégio. Já na agência, para resolver um caso ultrassecreto, ele recorre a um antigo colega, popular nos tempos da escola, hoje contador (Kevin Hart).


A exibição acontece na sala VIP da Cinépolis, exclusiva na cidade no Shopping Iguatemi, que oferece sistema de áudio, iluminação e climatização especial para os pequenos, poltronas reclináveis e serviço de garçons exclusivos.

Os ingressos são disponibilizados diretamente na bilheteria do cinema, com desconto de meia-entrada e com preço de sala tradicional.



Pais podem assistir aos filmes com conforto em  sala com adaptações no som, na temperatura e na luz ambientes - divulgação


Programe-se

Cinematerna no Shopping Iguatemi Ribeirão Preto

Dia: 23 de agosto (terça feira)

Horário: 14h

Onde: Sala Vip da Cinépolis