Cinema

14 dez/17

THE SQUARE - Crítica

postado por Mateus Barbassa



É muito interessante perceber o quanto o enredo do filme “The Square” possui um paralelo com a onda conservadora que se apresentou no Brasil no ano de 2017. Estão lá a polêmica dos museus envolvendo crianças e os limites da arte contemporânea. É engraçado e triste ao mesmo tempo. Mas essa é a forma que o diretor sueco Ruben Östlund encontrou para contar sua história ou explicitar sua visão de mundo. O filme conta a história de Christian, um diretor de um conceituado museu que se vê às voltas com a organização de uma nova exposição intitulada “The Square”. O projeto é ao mesmo tempo extremamente simples e ambicioso. Simples porque a obra que dá título à exposição é composta apenas por quadrado luminoso no chão. Já a ambição se dá porque há grandes teorias e expectativas sobre a tal obra. A crítica aqui se dá na lacuna existente entre a ideia e sua concretização. O quanto de exagero e hipocrisia pode existir no discurso artístico e todo o mercado que se monta em volta do artista e da obra. O pensador francês Jean Baudrillard escreveu que "A Arte se integrou ao círculo da banalidade” e é esse o ponto nevrálgico de toda a provocação e reflexão suscitados pelo filme.

Mas de quem é a culpa? Se é que há um culpado? Ruben Östlund cutuca esse vespeiro de forma bastante crítica: sim, existe hoje um amontoado de “obras” consideradas de arte que só ganham destaque porque são legitimadas pelo mercado (leia-se marchands, galeristas, acionistas) e aduladas pelos críticos dos grandes jornais e revistas. Uma arte burguesa, submissa, tatibitate e que não encontra nenhuma reverberação crítica, política ou estética. Pura masturbação egoíca.

Existe uma saída? Sim! E isso fica visível na excelente cena da performance de um ator que imita um macaco num jantar de gente rica. O lugar da arte não é agradável, bonitinha e perfurmada. NÃO! É selvagem. Libertária. Livre. Errática. Cruel. Artaud escreveu que "se falta enxofre à nossa vida, quer dizer, se lhe falta uma magia constante, é porque nos apraz contemplar os nossos atos e nos perdermos em considerações sobre as formas sonhadas de nossos atos, ao invés de sermos impulsionados por eles". É exatamente isso que o personagem principal do filme irá aprender na marra lá pelas tantas. E o mais belo de tudo isso é que essa lição é ensinada por uma criança. Nossas palavras, ações e gestos possuem reverberação no mundo real. E é preciso saber lidar com isso. Não cabendo mais aqui se esconder atrás de um suposto mundinho artístico. Essa atitude só pode gerar uma arte ingênua, ou pior, pessoas letárgicas e covardes. 

21 nov/17

BEACH RATS - CRÍTICA DE FILME

postado por Mateus Barbassa



É sabido o quanto a exigência de uma performance de masculinidade causa estragos em nossa sociedade, mas raros filmes conseguem tocar nesse assunto de maneira tão contundente, dolorida e cinematograficamente bela quanto “Beach Rats”. Talvez porque tenha sido escrito e dirigido por uma mulher? Sim. Pode ser. O que Eliza Rittman propõe em seu filme já foi retratado bastante vezes no cinema. Mas é o olhar do artista que transforma a realidade. E esse olhar faz toda a diferença aqui. O enredo é quase um clichê: garoto se “descobre” gay e não sabe como lidar com seu desejo. Basicamente é isso. No entanto, o mais importante está na entrelinhas. Frankie é um cara como todos os outros de seu bairro. Vestem-se igual (bermudas largas, camisetas cavadas e correntes pesadas no pescoço) e parecem não querer nada da vida. Vivem meio como zumbis, malham muito, vão à praia, pegam umas meninas e usam bastante drogas. Fazem tudo isso nos limites do seu bairro. Essa é a vida deles. Frankie apesar de ser exatamente igual aos seus amigos, esconde um secreto. Ele não tem nenhum desejo por mulheres. Para extravasar a avalanche sexual que ele traz dentro de si, busca parceiros em chats gays na internet. Sua predileção é sempre a mesma; homens mais velhos e que façam uso de drogas. A necessidade de usar drogas e não ter dinheiro para isso é usado como uma desculpa para esses encontros. Quando é perguntado se é gay, ele sai com um “eu não sei do que gosto”. Ao longo do filme, fica muito claro do que ele gosta, mas prefere não enxergar, para não sofrer mais. Só que é impossível manter-se a salvo num ambiente tão homofóbico quanto o seu. A tensão para se adequar ao que se supõe ser masculino cobra um preço altíssimo e a autodestruição pode ser um caminho sem volta.

O que a diretora propõe com seu filme é um estudo doloroso de personagem confrontado com seu meio social. É triste! Triste demais. Algo comparado com o que senti ao assistir ao documentário “The Mask You Live In” que apresenta as consequências desastrosas dessa masculinidade tóxica tanto para os próprios homens, quanto para as mulheres que sofrem com a violência e os abusos deles. E todo o erro está lá na base, na ausência de uma educação verdadeiramente libertadora, na diferenciação de como educar meninos e meninas. Está tudo lá. Tem um texto do escritor transexual Paul Beatriz Preciado que disseca todo esse processo:

"A criança é um artefato biopolítico que garante a normalização do adulto. A polícia do gênero vigia o berço dos seres vivos que estão por nascer, para transformá-los em crianças heterossexuais. A norma faz sua ronda em torno dos corpos frágeis. Se você não for heterossexual, a morte o espera. A polícia do gênero exige qualidades diferentes do garotinho e da garotinha. Ela molda os corpos a fim de desenhar órgãos sexuais complementares. Ela prepara a reprodução, da escola até o Parlamento, industrializa-a."



Frankie vivencia tudo isso na pele de maneira muito solitária. Ele não pode se abrir com ninguém. O ambiente em sua casa também não ajuda em nada. Seu pai está morrendo de câncer. Sua mãe parece viver num estado de catatonia esperando a morte desse homem que nada sabemos a respeito. A irmã mais nova está dando os primeiros sinais de uma sexualidade precoce. Ele só tem os caras mais velhos da internet e as drogas. Mais nada. Mas é pouco. Não supre. Não dura muito. Logo toda a angústia volta a cobrar seu alto preço. E ele precisa de mais drogas, mais caras, mais sexo despido de qualquer libertação. Até porque esses homens com os quais ele transa, não o enxergam de verdade. Só veem nele um rostinho bonito e um corpinho sarado. E é triste. Porque visivelmente ele queria ser mais. Mas é assim que ele precisa se vender, porque, do contrário, não terá ninguém para comprar. O desejo como mercadoria, como moeda de troca. Tantos vivem assim, não é mesmo?



O mais triste é que o personagem até tenta romper as portas do seu armário e expressar sua sexualidade mesmo que de maneira rudimentar (comentários, brincadeiras com amigos) mas só recebe respostas extremamente negativas e intolerantes que o fazem cada vez mais mergulhar nessa necessidade de performar uma masculinidade totalmente doentia. Ele então se vê obrigado a arranjar uma namorada para apresentar para os amigos e família. E repito: É tão triste! Porque o papel da mulher nesse ambiente de masculinidade tóxica é de uma mera figuração, um arremedo, um remendo para algo que não tem, nem terá qualquer possibilidade de salvação. Todos sairão perdendo. É uma luta inglória. Nem luta é. É apenas uma vivência sorumbática, vazia, errática. O texto da filósofa americana Marylin Frye é a definição mais certeira disso tudo que estamos vivenciando até aqui:

“Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens.” 
 
Triste. Muito triste. 




Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

30 out/17

10 melhores estreias de Novembro nos cinemas. Confira

postado por Diogo Branco

Novembro está chegando e já podemos dar um spoiler sobre o mês: vem muitos filmes bons por aí!

Já pode comemorar!



Por isso, listamos 10 filmes que serão lançados nas telonas durante o mês. Confira:



1 - Depois Daquela Montanha 


Diretor: Hany Abu-Assad
Data de estreia: 02 de novembro
Sinopse: Alex (Kate Winslet), uma jornalista que está indo preparar seu casamento, e Ben (Idris Elba), um doutor voltando de uma conferência médica, iriam pegar o mesmo avião, mas o voo é cancelado e os dois estranhos decidem fretar um jatinho. Durante a viagem o piloto sofre um ataque cardíaco e o avião cai em uma região montanhosa coberta por neve. Um romance começa a ganhar força enquanto eles tentam sobreviver, feridos e perdidos.



 
2 - O Estado das Coisas


Diretor: Mike White
Data de estreia: 02 de novembro
Sinopse: Brad (Ben Stiller) possui uma carreira lucrativa e uma vida familiar feliz, mas isso não é o bastante. Ele está obcecado em ser o mais bem-sucedido entre os seus ex-colegas de escola, mas, durante um reencontro com um velho amigo, ele é forçado a ignorar seu sentimento de inferioridade e rever seus conceitos.





3 - Liga da Justiça




Diretor: Zack Snyder
Data de estreia: 16 de novembro
Sinopse: Impulsionado pela restauração de sua fé na humanidade e inspirado pelo ato altruísta do Superman (Henry Cavill), Bruce Wayne (Ben Affleck) convoca sua nova aliada Diana Prince (Gal Gadot) para o combate contra um inimigo ainda maior, recém-despertado. Juntos, Batman e Mulher-Maravilha buscam e recrutam com agilidade um time de meta-humanos, mas mesmo com a formação da liga de heróis sem precedentes – Batman, Mulher-Maraviha, Aquaman (Jason Momoa), Cyborg (Ray Fisher) e The Flash (Ezra Miller) -, poderá ser tarde demais para salvar o planeta de um catastrófico ataque.





4 - Uma Razão Para Viver



Diretor: Andy Serkis
Data de estreia: 16 de novembro
Sinopse: A história real de Robin (Garfield), um homem brilhante e aventureiro que fica paralisado por conta da poliomelite. Contra todos os conselhos, ele e sua amada Diana (Claire Foy) se recusam a ser aprisionados pelo sofrimento e vivem uma intensa história de amor, com cada respiração como se fosse a última.






5 - Gosto Se Discute



Diretor: André Pellenz
Data de estreia: 9 de novembro
Sinopse: Em meio ao desenvolvimento de um novo cardápio para o seu restaurante, o chefe de cozinha Augusto (Cassio Gabus Mendes) perde o seu paladar. Ao mesmo tempo em que enfrenta esse problema, ele precisa lidar com a concorrência de um food truck recém-instalado do outro lado da rua.





6 - Sem Fôlego




Diretor: Todd Haynes
Data de estreia: 23 de novembro
Sinopse: Gunlint, Minnesota, 1977. Ao atender um telefonema, o garoto Ben (Oakes Fegley) é atingido pelo reflexo de um raio, que caiu bem em sua casa. Esta situação faz com que seja levado a um hospital em Nova York, onde descobre que não consegue mais ouvir um som sequer. Em 1927, a jovem surda Rose (Millicent Simonds) foge de sua casa em Nova York para encontrar sua mãe, a consagrada atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore). A vida destes dois garotos que não conseguem mais ouvir está interligada a partir de um livro de curiosidades, que os leva ao Museu de História Natural.




7 - Boneco de Neve




Diretor: Tomas Alfredson
Data de estreia: 23 de novembro
Sinopse: Quando uma mulher desaparece, a única pista deixada para trás é um cachecol rosa encontrado envolta de um estranho boneco de neve. O detetive Harry Hole (Michael Fassbender) começa suas investigações e percebe que o crime parece obra de um serial killer.




 8 - Assassinato no Expresso Oriente



Diretor: Kenneth Branagh
Data de estreia: 23 de novembro
Sinopse: Várias pessoas estão fazendo uma viagem longa em um luxuoso trem. A paz, entretanto, é perturbada por um acontecimento sinistro: um terrível assassinato. À bordo da composição está ninguém menos que o mundialmente reconhecido detetive Hercule Poirot (Kenneth Branagh) que se voluntaria para iniciar uma varredura no local, ouvindo testemunhas e possíveis suspeitos para descobrir o que de fato aconteceu.





9 - O Estrangeiro




Diretor: Martin Campbell
Data de estreia: 30 de novembro
Sinopse: Quan (Jackie Chan) é dono de um típico restaurantes chinês em Londres, capital da Inglaterra. Após um misterioso ataque de um grupo de terroristas irlandeses ao seu estabelecimento, ele tem sua vida e família devastadas. Sem muito apoio da polícia local, ele vai buscar vingança com suas próprias mãos.




10 - Pai em Dose Dupla 2




Diretor: Sean Anders
Data de estreia: 30 de novembro
Sinopse: Após resolverem suas diferenças, Brad (Will Ferrell) e Dusty (Mark Wahlberg) precisam agora lidar com uma nova situação complicada: a súbita aparição de seus pais (John Lithgow e Mel Gibson), que possuem comportamentos bem diferentes.




Sem desculpas para não ir ao cinema em Novembro, heim?




23 out/17

10 séries sobre bruxas para seu Halloween! Confira

postado por Diogo Branco

Halloween está chegando e você quer passar esta data longe de fantasias de bruxas e abóboras?
Nós te ajudamos! Listamos 10 séries para você aprender mais sobre esta data, no conforto do seu sofá!

Pode comemorar!!!






1 - Wiches of East End



Essa série é daquelas que te prendem do início ao fim. Trama inteligente, personagens bem elaborados, e uma dose de humor  - na medida certa, é claro - para manter a série mais leve e divertida. A personagem central é Joanna (Julia Ormond), uma poderosa bruxa, tem duas filhas que também são bruxas, Ingrid (Rachel Boston), que tem o poder de ver o futuro, e Freya (Jenna Dewan-Tatum), especialista em poções. Joanna, a mãe, prefere não contar para suas filhas que elas são bruxas, mas elas acabam descobrindo isso com o tempo. 
Infelizmente, a série não chegou à terceira temporada, e foi cancelada. Após o cancelamento, os fãs e o próprio elenco se uniram e iniciaram uma petição online para retorno da série, com mais de 250 mil assinaturas. Infelizmente, o barulho não gerou resultados.

Mas ainda assim, podemos garantir que é uma série que vale muito a pena de ser assistida.










2 - American Horror Story: Coven



Uma das séries de maior sucesso da Netflix, American Horror Story virou um clássico para os fãs de séries de terror.
Cada temporada tem sua história independente, mas especialmente a terceira temporada, chamada de "Coven", fala sobre bruxas.

Coven segue a trama histórica e lúdica de bruxas que buscam sobreviver e resistir a extinção da espécie que ao passar dos anos tende a diminuir. A temporada se passa em nos 
Estados Unidos, também trazendo a escravidão como tema do enredo.

A dica é: assista desde a primeira temporada, pois, apesar de não abordarem o mundo das bruxas, valem muito a pena!









3 - The Secret Circle



A série mostra uma adolescente da Califórnia, Cassie Blake, que vivia com sua mãe Amelia, até que a mãe morre em um trágico acidente. Cassie vai morar com sua avó Jane na pequena cidade Chance Harbor, Washington, onde os habitantes parecem saber mais sobre ela do que ela sabe sobre si própria. Quando Cassie conhece seus novos colegas, coisas perigosas e estranhas começam a ocorrer e aparentemente seus amigos estão envolvidos. O grupo explica a Cassie que eles são descendentes de bruxas, e que estavam esperando por ela, para se juntar e completar a nova geração do Círculo Secreto.









4 - Salem



Não podemos falar em Bruxas sem falar da caça às bruxas que aconteceu em Salem, certo?

Salem
 é uma série de terrorfantasia e drama histórico criada por Adam Simon e Brannon Braga que estreou no canal estadunidense WGN America em 20 de abril de 2014. É baseada na perseguição conhecida como Bruxas de Salém do final do século XVII.
A série é ambientada em Salem, nos Estados Unidos do século XVII e acompanha John Alden, um guerreiro que retorna após sete anos e descobre que a cidade está em meio a uma grande histeria de bruxas, enquanto Mary, um amor do passado de John, é uma das principais e muito poderosa bruxa do coven.









5 - Penny Dreadful



Drácula, Frankenstein, Dorian Gray, lobisomens, e possessões demoníacas, tudo isso junto nessa série de suspense situada na Londres da era Vitoriana. Isso sem falar na magnífica performance de Eva Green.

Especificamente na segunda temporada, saem os vampiros e entram as bruxas como vilãs principais.













6 - Charmed



Charmed é uma série que relata a história das irmãs Halliwell - as mais poderosas e boas feiticeiras/bruxas, conhecidas na comunidade sobrenatural como as Charmed Ones (traduzido como Encantadas). Cada uma das irmãs tem um poder particular, que se desenvolve à medida que conseguem controlá-lo. As Encantadas vivem em São FranciscoCalifórnia numa mansão que foi erguida por sua família em um poderoso lugar de conversão mágica e usam seus dons para defenderem inocentes contra bruxos, feiticeiros, demônios e outras criaturas sobrenaturais que vivem no submundo.











7 - Sabrina - Aprendiz de Feiticeira



Era um comédia de situação (sitcom) que girava em torno de Sabrina, uma adolescente que foi morar com suas tias, Hilda e Zelda; e Salem, o gato preto de estimação delas. Em seu aniversário de 16 anos, suas tias a contaram que era uma meia-bruxa, já que sua mãe era uma mortal e seu pai um bruxo. Foi alertada que ficaria proibída de ver a própria mãe no princípio, caso contrário sua mãe se transformaria em uma bola de cera. Ela então desenvolveu poderes mágicos, usando-os para ajudar aqueles que amava e a si própria, mas seus feitiços quase sempre terminavam em desastre e confusão. Aos poucos e com o passar do tempo ela foi aprendendo a domá-los, e sempre lutando para guardar seu segredo.











8 - Eastwick



A série baseada no filme As Bruxas de Eastwick não teve todo o sucesso de Charmed e foi cancelada depois de sua primeira temporada, mas ainda assim vale apena dar uma espiada. Assim como no filme, também trazia três bruxas interessantes: Joanna (era uma tímida repórter), Kat (uma mãe e esposa atarefada), e Roxie (uma artista excêntrica). Elas se conhecem, se tornam melhores amigas. Quando chega na cidade um homem misterioso e totalmente sexy, elas acabam descobrindo que possuem poderes que nem sabiam existir. Este homem misterioso as ajuda a compreender seus poderes, a despertá-los, mas o que elas não sabem, é que ele não é nenhum santinho.






9 -  A Feiticeira



"Samantha" e "James" seriam um típico casal americano se não houvesse um detalhe inusitado: Samantha tem o poder de fazer mágica com uma simples torcidinha do nariz. E o marido James, um publicitário atrapalhado, também tem características incomuns, apesar de não ter nenhum poder excepcional. Quando descobre os dons da jovem esposa prefere ignorá-los, sem jamais contar com eles na solução dos seus problemas. Ele segue trabalhando duro, levando bronca do chefe, sem pedir ajuda a sua bruxinha particular. Já Samantha, fiel a sua origem, está sempre tentada a usar todos os seus poderes, para facilitar a vida do casal.

Mas o amor fala mais alto e para não desagradar ao marido a feiticeira vive driblando sua natureza de bruxa. O resultado desse conflito permanente é uma sucessão de situações complicadas, surpreendentes e muito divertidas.
James se irrita com as magias da mulher e principalmente com as interferências de "Endora", que além de sogra é uma terrível bruxa, sempre importunando a vida do casal. Eles tem dois filhos, a esperta bruxinha "Tabatha", que segue os passos da mãe na magia e "Adam", o filho mortal. A vida do casal é compartilhada com outros personagens encantadores, como a "Tia Clara", a esquecida babá das crianças, "Esmeralda", "Gladys Kravitz", a vizinha bisbilhoteira e "Abner", seu marido distraído, "Serena", a prima biruta de Samantha, "Larry Tate", o chefe de poucos escrúpulos de James e "Arthur"; o tio palhaço de Samantha.








10 - Os feiticeiros de Waverly Place




A revelação mirim da Disney, Selena Gomez, estrela a série infanto-juvenil sobre uma família de bruxos. A comédia juvenil conta a história dos irmãos Russo, Alex, Justin e Max, que um dia vão ter de competir para ver quem vai manter seus poderes na vida adulta, pois só um pode ficar com eles, o pai deles, por exemplo, perdeu a disputa com o irmão. O programa transmitido de 2007 a 2012 ganhou um filme em 2009, Os Feiticeiros de Waverly Place - O Filme. Mas com certeza, apesar de engraçadinha e interessante, o melhor da série é ver o início do sucesso de Selena Gomez.





Bom, agora é só comprar pipoca e se jogar no mundo das bruxas neste Halloween!
Esquecemos de alguma série sobre bruxas? Conta pra gente! Escreva para farofaculturalribeirao@gmail.com





 

16 out/17

Trailer de "Star Wars: Os Últimos Jedi" alcança 120 milhões de views em 24 horas

postado por Diogo Branco

Os fãs de ‘Star Wars‘ gostaram tanto do novo trailer de ‘Os Últimos Jedi‘, que o número de visualizações chegou  120 milhões nas primeiras 24 horas.
A informação foi confirmada pela própria Lucasfilm, que pontuou que o altíssimo número contabilizado inclui TV e internet.



Essa nova marca foi significativamente superior ao último trailer da produção, sendo 29,1 milhões a mais em relação ao material lançado em abril deste ano.
Já considerado um dos trailers mais assistidos da história, ele não conseguiu superar a emblemática marca de ‘
It: A Coisa‘, que continua reinando com 197 milhões de visualizações em 24 horas.



De acordo com o The Hollywood Reporter, o recorde de trailer mais assistido em 24 horas é de “It: A Coisa”, com 197 milhões de visualizações. Em segundo lugar está “Velozes e Furiosos 8”, com 139 milhões, em terceiro está “Thor: Ragnarok”, com 136 milhões, e em quarto vem o live-action de “A Bela e a Fera”, com 127,6 milhões de visualizações

25 set/17

Mãe! - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa




“Eles não ouvem”
 
Lá pelas tantas a personagem da atriz Jennifer Lawrence solta essa frase aos berros. Ela se refere aos “visitantes” que estão destruindo seu sonho de casamento perfeito. É uma frase extremamente simbólica para todo o périplo que o diretor Darren Aronofsvky mostrará em sua obra controversa. Controversa no sentido que ou as pessoas vão amar ou odiar o que o diretor está propondo. Não há meio termo. É uma provocação. Uma experiência. E cada um vai ver apenas o que quiser ou puder ver. SIM! É uma relação de espelhamento. E ao mesmo tempo exige de nós, espectadores, um estado de não identificação. Quase como se meditássemos. Ou participássemos de uma espécie de ritual. Algumas coisas não farão sentido. A maioria delas. Porque a linguagem acessada aqui não é a da realidade, mas a de um ponto de vista muito bem determinado pela práxis cinematográfica de toda a obra. Criação. Manutenção. Destruição. Ou poderia ser: Gênesis. Evangelho. Apocalipse. Sim. Aronofsky remonta toda história bíblica para nos mostrar como chegamos até aqui. E aqui deve se entender como toda a merda que estamos vivendo atualmente... ou seria desde sempre? Daí que a história é até mesmo simples. Ele, personagem de Javier Bardem, é um escritor entediado que mora numa casa no meio do nada. Ele é casado com Mãe. (Acostume-se os personagens não possuem nomes e são assim grafados no final do filme) O filme começa mostrando que a casa onde eles moram passou por incêndio e que Mãe restaurou cada parede da casa. Eles parecem viver bem, mas Ele não parece se importar muito com ela. Já Mãe vive para Ele. Um dia, do nada, aparece Homem e Ele o recebe de braços abertos e o convida para morar em sua casa. Mãe se ressente porque nem mesmo foi consultada. Homem é um daqueles caras que vivem a vida adoidado, bebe demais, fuma demais e possuí uma admiração quase infantil por Ele. Ele por sua vez se deixa fascinar completamente por essa admiração. No dia seguinte, aparece Mulher. Ela é extremamente ardilosa, dissimulada e invasiva. Mãe vira um fantasma dentro de sua própria casa. Tanto Homem quanto Mulher podem entrar em qualquer cômodo da casa, menos no escritório onde Ele escreve e exibe um misterioso amuleto (uma pedra preciosa, a única coisa que sobrou do incêndio). Lógico que Homem e Mulher não respeitam a exortação de Ele e invadem o local e quebram o amuleto. E É AQUI QUE TUDO DESANDA. No dia seguinte, aparecem os filhos, que estão brigando pelo testamento de Homem. A briga é tão intensa que um deles acaba sendo morto pelo próprio irmão. Não é preciso prolongar o resumo para entender que o diretor está recriando o seu Gênesis particular e que Ele representa a imagem e semelhança de Deus, Mãe representa a Terra, Homem e Mulher são Adão e Eva e seus filhos Caim e Abel. E o tal escritório e o amuleto representam a árvore e o fruto do conhecimento do bem e do mal. A força dessa situação mítica é dolorosa, porque demonstra a solidão, o tédio e a carência desse Deus que cria a humanidade para mera bajulação. Mãe não importa nada para Ele. É um mero acessório. Ele é fascinado pelos homens e mulheres que o bajulam constantemente. Esse é o primeiro ato. Aquele que representa a Criação ou Gênesis.

O segundo ato começa com a gravidez de Mãe. Após muitas brigas e ressentimentos, eles transam e ela engravida e tudo meio que volta a ser como era antes. Ele e Mãe vivem numa espécie de lua de mel. Ele até volta a escrever. Mas novamente é traído por seu ego enorme. Aqui tem inicio o Evangelho ou O Nascimento e Morte de Jesus, aquele que veio para salvar a Terra (Mãe) da iniqüidade. A megalomania do personagem Ele logo é tentada ao escrever e publicar o poema inspirado pela gravidez de Mãe. Ele começa a ser procurado por jornalistas e fãs que querem conversar sobre sua obra. Mais uma vez ele esquece de Mãe e se joga nos braços de seus adoradores. Mãe se ressente novamente. E é aqui que começa o Apocalipse. Que eu não vou comentar aqui porque é uma das coisas mais doidas já produzidas pelo cinema. Aronofsky nos esfrega na cara todo o estado atual das coisas É como se houvesse uma libertação de todas as coisas, signos, ideias, conceitos, essência, valor, referência, origem e finalidade. E isso tudo se resvala num delírio, pesadelo, caos. Onde cada um pode enfim libertar-se de sua máscara e revelar sua face mais hedionda. O resultado disso é uma confusão total. O CAOS REINA. E nem mesmo o nascimento de Jesus é capaz de aplacar essa balbúrdia. Muito pelo contrário. Porque o ego divino só enxerga ai a possibilidade de adoração barata. E nesse mundinho particular materializado nessa casa no meio do nada é que toda nossa humanidade mais primitiva vem à tona. SIM! Como afirmou o pensador Jean Baudrillard, nós somos criaturas ávidas por imagens, embora secretamente sejamos iconoclastas. “Não desses que destroem imagens, mas desses que fabricam uma profusão de imagens em que não há mais nada para ser visto.” E é essa a provocação do filme!!!!!! Porque chegamos a um tal nível em que já não é mais possível fazer nenhum julgamento. Mas NÃO. NÃO! Aronosfvy quer que não sejamos indiferentes e possamos nos posicionar diante de seu filme e indo além, nos posicionar perante a vida. Não é pouca coisa!!!

 



Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

04 set/17

COMO NOSSOS PAIS - Crítica

postado por Mateus Barbassa



"NÃO QUERO MAIS FINGIR QUE SOU UMA MULHER QUE DÁ CONTA DE TUDO. EU NÃO DOU CONTA DE TUDO. 


À primeira vista “Como nossos pais” pode parecer um filme simples, até mesmo novelesco. Mas à medida que o enredo vai se desenrolando, vemos que as intenções de Laís Bodanzki são muito mais sutis e importantes do que aparentam. De certa forma, é o retrato preciso de uma geração de mulheres que estão se dando conta que existe toda uma estrutura de sociedade que é voltada contra elas. Que fabrica mentiras contadas repetidas vezes que são compradas como verdades absolutas e que só traz sofrimento. No entanto, essa ficha demora a cair. A lucidez cobra seu preço e é preciso rever todos os conceitos e, sobretudo, questionar tudo o que fomos ensinadas. Isso inclui família, emprego, casamento, amor, tesão, filhos, valores, etc, etc, etc. E sim, a questão aqui é feminina. O ponto de vista é delas. Os homens do filme são como os homens da nossa contemporaneidade; em sua esmagadora maioria uma cambada de bananas. A grande reflexão que o filme me causou é algo que já venho diagnosticando já a um bom tempo. A importância do masculino em nossas vidas foi totalmente superestimada. Aprendemos desde sempre que mulheres precisam dos homens e que eles são seres livres, autônomos e maravilhosos e que nosso espaço na vida deles é algo sem nenhuma isonomia. A relação é quase sempre desigual e cheia de possíveis abusos. Somos enfraquecidas em nossa potência através de sucessivos processos que na maioria das vezes nem nos damos conta. Por isso, chega a ser irônico que a personagem principal seja uma dramaturga castrada em sua criatividade e que ao mesmo seja quem provem a casa, enquanto seu marido tenta salvar o mundo. Foi esse sempre o lugar do feminino. A manutenção de todos esses valores passa pelo ideal da maternidade e não é a toda que o filme remeta a isso logo em seu título. Em nome de manter as relações familiares todas as gerações de mulheres são silenciadas em inúmeras questões. O mito da maternidade é algo vendido como o ideal de felicidade para todas as mulheres. A polícia de gênero cumpre seu papel desde a mais tenra idade. Reduzindo todo o potencial feminino a reprodução do papel de mãe. Observe o que todos os brinquedos comercializados como para meninas comunicam. Todos visam a criar essa falsa ilusão de que você só será completa quando engravidar, gerar e cuidar de sua própria prole.

O aprendizado de Rosa, a protagonista do filme, é extremamente doloroso e inclui colocar em xeque todas essas supostas estabilidades. Pois são elas, as maiores responsáveis por criar esse padrão do que é ser mulher. Impossível não pensar em Simone de Beauvoir e sua frase clássica (“Não se nasce mulher, torna-se”) e todos os seus milhares de significado. A jornada dessa mulher contemporânea é se dar conta de todos esses processos sociais normalizadores que inventam essas classificações e que acabam por gerar toda essa ansiedade e sofrimento por esse sujeito social estável.
 
Várias e várias referências pululam aqui e acolá o tempo todo fazendo com que essa casca de comportamentos coerentes e regulares seja rompida. A maior delas é a obra teatral “A Casa de Bonecas” escrita pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen em 1879. Tanto lá quanto cá, as protagonistas são mulheres submissas que vivem para a casa estendendo até mesmo para seus maridos o papel de mãe. Mas as divergências são ainda mais assustadoras. Apesar de trabalhar e ser a responsável pelo sustento da casa, Rosa ainda vive de acordo com que a sociedade acha que deve ser. Seu papel de mãe acaba por confinar seus desejos dentro daquelas paredes domésticas e tudo que se afasta desse ideal acaba por gerar mentiras e culpas. Essa frustração de algo que poderia ter sido e que não foi é o que sobra dessas vidas comercializadas como perfeitas. Dois contrapontos preciosos são apresentados nos papéis da Mãe de Rosa e de sua meia-irmã mais nova. Clarice, a mãe, é uma mulher  austera, fria, bastante egocêntrica, que vive sua vida da maneira como quer, diagnosticada com câncer não consegue deixar o prazer de fumar. Numa leitura esteoritipada de gêneros seria vista como masculinizada. Já a meia-irmã dela, possui algo de silencioso, daquelas que não precisam fazer alarde de suas verdades, até mesmo por não as ter ainda. O aspecto mais simbólico é que elas representam a velhice e a juventude. Já Rosa é a representante da vida adulta. Aquela que supostamente deve saber se comportar dentro dos padrões esperados. Tanto Nora de “A Casa de Bonecas”, quanto Rosa vão aos poucos se dando conta que não são pessoas se verdade. Se a metáfora proposta por Ibsen é a das bonecas, Bodanzky cutuca ainda mais fundo. Sim. Rosa é um fantoche daqueles confeccionados pelo seu próprio pai e usado para entretê-la em sua infância. A cutucada é mais profunda, porque se a boneca é apenas um objeto inanimado, o fantoche só ganha vida quando manipulado por outra pessoa. Se a trajetória de Nora é não mais brincar de casinha, a de Rosa é não mais aceitar ser manipulada pelos homens de sua vida. Isso inclui seu pai de criação aparentemente inofensivo, mas que é um aproveitador de marca maior, seu marido igualmente inofensivo, mas que a sobrecarrega com a rotina doméstica enquanto viaja pra cá e pra lá e quando está em casa fica na cobrança por sexo, seu pai biológico, um político importante que comanda o país, mas que não é capaz de ter qualquer atitude em sua vida privada e até mesmo um pai de um aluno da mesma escola de suas filhas que ela idealiza por vê-lo sempre fazendo compras, ou na reunião escolar, mas que pode esconder um comportamento machista por trás de todo o discurso libertário. Essa frustração com o masculino é extremamente importante para todo o processo que se seguirá e até mesmo para enxergar com olhos mais humanos para sua mãe prestes a morrer e sua filha mais rebelde. O ponto onde quero chegar com todo esse texto é exatamente esse. As mulheres são manipuladas para enxergar o risco, a ameaça, o medo em outras mulheres. Essa técnica visa impedir que elas compartilhem experiências e se apóiem. Essa impossibilidade de dividir o peso com outras mulheres acaba por criar desigualdade na relação entre homens e mulheres e até mesmo gerar esse sentimento de incompletude quando não se tem um representante do sexo masculino do lado. O mais extraordinário do filme é que toda essa questão é desencandeada após a revelação da mãe que Rosa não é filha do homem que ela acreditou a vida inteira ser seu pai. Aqui se faz preciso destacar que toda a ideia de propriedade privada que perdura até hoje é totalmente atrelada à descoberta do homem que ele participava do processo de concepção da vida. Até então as mulheres eram endeusadas e as crianças eram criadas por toda a comunidade. Ao observar os animais essa noção se desfaz e o medo de criar a prole de um outro homem gera todo esse cerceamento da liberdade feminina. Nascem ai o patriarcado, o machismo e toda essa noção e performance de gênero que carregamos até hoje. Sua manutenção é feita por todo um arsenal de artefatos e pirotecnias simbólicas que nos dizem a todo momento o que devemos fazer para ser um homem ou uma mulher. A filósofa queer Judith Butler escreveu que nós recebemos essas informações “pelas mídias, pelos filmes ou através de nosso pais, nós as perpetuamos através de nossos fantasmas e nossas escolhas de vidas” e que temos que negociar a todo instante com essas ideias e concluí:

”Alguns de nós as adoram e as encarnam apaixonadamente. Outros as rejeitam. Alguns detestam mas se conformam. Outros brincam da ambivalência… Eu me interesso pela distância entre essas normas e as diferentes formas de responder a ela."

Creio que esse interesse e resposta às normas seja o norte de toda ação libertária de Nora, Rosa e algumas muitas mulheres. A beleza do filme reside aí.

PS: Que trabalho lindo o de Maria Ribeiro, uma atriz que até então não tivera tido chance de mostrar seu talento. Sua Rosa é um transbordamento de existir. É uma flor de lótus que da lama floresce algo sublime.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

05 jun/17

THE LEFTOVERS

postado por Mateus Barbassa





Encerrada a série “The Leftovers” é possível traçar um panorama do que os seus criadores tinham em mente ao criá-la. Executada em três maravilhosas temporada (cada uma melhor que a outra), a série nos jogou numa espécie de limbo emocional ao mostrar um mundo onde 2% da população simplesmente some do nada. Não há explicações. Nada. Simplesmente somem. E o mais genial de tudo é que nunca foi sobre o que teria acontecido. Mas sobre quem dolorosamente ficou. Sobre os que sobraram. Os deixados para trás. Ainda no final da segunda temporada eu escrevi lá no facebook:

É tudo sobre o amor. Sobre a capacidade humana de seguir. Mesmo não sabendo nada de nada. Somos uns perdidos. Jogados ao léu. Obrigados a existir em meio a tantas coisas. É tudo sobre a verdade. Não como conceito. Mas como prática. Somos ensinados a mentir. Suportar. Esconder nossas dores e fracassos. Mentir que está tudo bem mesmo quando não está. É preciso fazer um movimento hercúleo em direção a si mesmo. É preciso saber que se há um mal, ele se esconde na negação de si mesmo e do outro.
 
Sim. Ainda é sobre isso. E sempre será. A jornada de Kevin e Norah é também a nossa. A jornada em busca de respostas e soluções só traz mais sofrimento. Simplesmente não há respostas. É assim e ponto. O encontro só pode acontecer através da aceitação. O único movimento possível. Ir de encontro à verdade, ao outro ou a si mesmo só acontece quando nos voltamos para dentro. Quando limpamos nosso espelho cheio de poeira (que são as crenças, as certezas, nossos pseudos conhecimentos). Quando nos tornamos inocentes outra vez. De certa forma habitamos universos paralelos.  E todos os pensadores foram unânimes em afirmar que quando olhamos para fora, tudo é escuro, e o oposto se dá quando olhamos para dentro. Mas não somos ensinados para lidar com as coisas de dentro. Não somos ensinados a contemplar o silêncio e a solidão. Não somos ensinados a amar. Pelo contrário. Somos doutrinados a mentir, a crer, a buscar, a temer. E o que “The Leftovers” nos escancara de maneira avassaladora é que tudo é muito mais simples do que pensávamos. O mundo é apenas uma projeção do nosso medo. Buscamos respostas para coisas que não existem e nos esquecemos do que existe. Do que sempre esteve ali na nossa cara escancarado o tempo todo. A questão toda não era sobre em como descobrir a verdade, mas como se lembrar dela. Uma coisa que sempre me chamou a atenção na série é que todo mundo que desapareceu estava numa situação de não ser desejado. O bebê que chorava enquanto a mãe estava na lavanderia, a amante de Kevin, os filhos e marido de Norah, o bebê ainda na barriga de Laurie e assim vai. Pra mim, a série é sobre isso. Sobre lembrar de algo que existe, mas que em algum momento se perdeu.
 
Certa vez a escritora Clarice Lispector perguntou ao dramaturgo Nelson Rodrigues qual era a coisa mais importante do mundo. “É amor”, ele disse. Ela então perguntou; Qual a coisa mais importante para uma pessoa como indivíduo? “É a solidão!”
 
Sim! Sim! Mil vezes sim!
 
Daí que "The Leftovers" sempre se destacou por sua jornada extremamente sensível no que diz respeito à sensação desestabilizadora diante da perda. Não a aceitamos. Não fomos preparados para ela. E muito menos somos preparados para aceitar o mistério. Queremos respostas. O mais bonito de tudo é que a "resposta" que a série nos proporcionou ao final de sua jornada é que o que realmente importa é o aqui e o agora. Chegou finalmente a hora de cessar os sonhos e as recordações e viver o presente. Belíssimo!

 

 

18 abr/17

13 Reasons Why - Crítica

postado por Mateus Barbassa




" - Eu te amo e nunca vou te magoar. Eu não vou embora, nem agora, nem nunca. Eu te amo, Hannah.
- Mas por que você não disse isso quando eu estava viva?”


Gostaria de começar esse meu texto sobre a série “13 Reasons Why" da Netflix indo bem direto ao ponto. Comecei a assistir devido a enxurrada de textos que dominaram as redes sociais. No começo eram só elogios e aos poucos opiniões profissionais alertando dos perigos da série. Fiquei curioso e fui assistir. Confesso que os dois primeiros episódios não me pegaram tanto. Achei a direção um tanto quanto preguiçosa e depois que fui perceber que o diretor era o mesmo do filme “Spotlight” que eu odiei. Depois do segundo episódio a direção muda e eu comecei a gostar e me envolver com os personagens e história. Durante os episódios seguintes fiquei tentando entender tanto as críticas positivas quanto as negativas e meu pensamento ia sempre para uma outra direção. Explico. Não acho que o tema central seja suicídio ou depressão ou coisa parecida. Creio que a coisa é muito mais profunda que isso e pouca gente conseguiu captar por causa dessa polarização idiota de gostar ou não. Mas evitei falar sobre isso porque queria assistir aos episódios todos e só depois emitir uma opinião ou não.
 
Bom, no meu ponto de vista o tema central da série é a socialização masculina e suas conseqüências desastrosas na sociedade. Repare que todos, sim, eu disse todos os personagens são vítimas desse processo civilizatório. O que Hannah faz com suas fitas é trazer consciência de cada ato. Sim. De um jeito torto, adolescente, mas ela está tentando entender. E esse é o aspecto que mais gosto na série. Precisamos falar sobre isso. Homens e mulheres são educados de maneira diferentes, conflitantes até. A polícia de gênero vigia os corpos antes mesmo de eles nascerem. Toda educação, sonhos e futuro são definidos quando o médico diz o sexo dos bebês. É como se fosse um nefasto sistema de castas indiano. Nasceu homem e se manteve heterossexual? Toma aqui alguns inúmeros privilégios. Deu a infelicidade de nascer mulher? Vamos te constranger psicologicamente e te fazer submissa. Quase sem nenhuma possibilidade de sair fora ou se mover dentro desse sistema.
 

E o que a série nos apresenta é um estudo assustador dessa socialização masculina. A esmagadora maioria dos meninos retratados possui uma dormência emocional assustadora. Falta-lhes o essencial: empatia, compaixão. Mas não foram ensinados a ter. Não chore. Seja homem. Não demonstre sentimento, emoção. Seja homem. Pegue o máximo de meninas que conseguir, sem se importar com nada. Seja homem. E acima de tudo não seja um gay, não seja mulherzinha. E o que é ser gay ou mulherzinha nesse contexto? É ter sentimentos. É se importar com os sentimentos alheios. É nesse momento em que todos são vítimas e ao mesmo tempo algozes de si mesmo e uns dos outros. É preciso se vigiar. É preciso vigiar o amigo. Então, tome brincadeirinhas de gosto duvidoso. Elas servem de alertas. Olha aqui, se você ousar sair do esperado, vai se dar muito mal. Todos os personagens masculinos da série são extremamente solitários. Não dividem segredos. Não conversam sobre nada que não seja videogame, mulher, cerveja, sexo e esporte. São inábeis emocionalmente. Todos sofrem, mas não sabem como sair desse círculo vicioso.
 
Na outra ponta, temos as personagens femininas. Elas até querem ser amigas umas das outras, mas não conseguem. O estado de competição que são impostos a elas também cobra seu preço. Elas precisam disputar os meninos entre si. Você nunca se perguntou os motivos daquele garoto idiota sempre estar namorando uma garota muito mais interessante que ele? Garotos assim raramente ficam sem namorar. Repara! Mulheres são socializadas para serem mantenedoras da vida, das relações. Aceitam a submissão e perdem o seu melhor. É triste. Mas é assim.

"Tem que melhorar, a maneira que tratamos uns aos outros e olhamos uns pelos outros, de alguma forma temos que melhorar."
 

E correndo por fora. Temos os “outsiders”. Aqueles que são diferentes dos demais e que podem fazer a diferença no mundo. Na série são representados por Hannah e Clay. Esses são talvez os que mais sofrem. Porque representam tudo aquilo que incomoda os demais. Então, pagaram o preço também. Toda a história que acompanhamos é do ponto de vista desses dois personagens. Eles se gostam, mas não conseguem admitir o sentimento que nutrem um pelo outro. Clay é o típico adolescente nerd, intovertido, magro demais, sensível demais, inteligente demais, não faz nenhum esporte, não tem traquejo com as meninas.. Ele também sobre bullying dos outros garotos. E seu contato com Hannah é apenas superficial. Embora ambos queiram estreitar esses laços, não conseguem. Com a morte de Hannah, Clay se revolta contra tudo e todos e mergulha num processo destrutivo e necessário.



"Este armário é especial, ele era de uma garota que se matou. Estão vendo todos esses cartaz de "não se mate" nas paredes? Eles não estavam ali antes. Eles foram colocados porque ela se matou. E por que ela fez isso? Por que os jovens daqui a trataram feito merda, mas ninguém admite. Então pintaram os banheiros e fizeram um memorial, porque esta escola é assim. Todos são muito legais até que fazem você se matar. E cedo ou tarde, a verdade virá à tona. Ela vira à tona. Bem-vindos a escola Liberty."

Essa suposta ordem é brutal e representa uma visão de mundo machista e misógina que chamamos de Patriarcado. Um sistema que oprime, explora e objetifica mulheres. E é exatamente esse o conteúdo de todas as 13 fitas gravadas por Hannah. Ela não está depressiva. Ela não quer se suicidar. Ela só não aguenta mais conviver com tudo isso. Daí, que é preciso mudar um pouco o foco do nosso entendimento da série. Não é sobre vingança como vi muita gente escrevendo por ai. Ela não quer se vingar de nada. Ela quer entender os porquês disso tudo acontecer com ela. Ela não é uma sociopata (!!!!!) como também li algumas críticas. Ela é uma adolescente com toda uma vida pela frente que descobre cedo demais como o mundo pode ser cruel com mulheres que não se submetem aos seus desmandos. Hannah rompe com o silenciamento que é imposto às mulheres. Ela fala. Ela dá nome aos bois. Ela tenta. Mas infelizmente acaba por não encontrar saídas. Que sim existiam. Mas ela é uma adolescente. E essa fase tudo se amplia, se complica e parece que não existe uma outra possibilidade. Hannah não é uma suicida. Ela é alguém que foi esmagada em sua mais profunda sensibilidade. E suas treze fitas não é um acerto de contas. É um chamado para a conscientização. Precisamos disso. Precisamos colocar a boca no trombone e falar dos abusos que nos são impingidos. Fale! Fale! Fale! Por isso não acredito que a série romantize o suicídio. Mas de jeito nenhum. Reparem na jornada de Jéssica, outra personagem feminina da série, e vejam como é sobre isso também. Romper com o silenciamento. Elas são parecidas. Passaram por situações parecidas. E o final da personagem conversando com o seu pai sobre o estupro que ela sofreu é de arrepiar os pelos do corpo inteiro. Quem já passou por um abuso sexual sabe o quanto é complicado falar sobre isso com alguém. Medo. Vergonha. Nojo. Repulsa. Culpa. Muita culpa. Tudo isso passa pela cabeça da pessoa abusada. E falar sobre isso é um processo libertador. A jornada de Jéssica é exemplar nesse sentido. Justin também é outro personagem que passa por uma conscientização dolorosa. Ele é o menininho bonito da escola, aquele que todas as meninas querem exibir como troféu. No começo é só mais um babaca, mas pouco a pouco suas fichas vão caindo. A cena em que ele é expulso de casa pelo namorado machista da mãe, que o agride, humilha é o retrato fiel de quem ele se tornará se não mudar urgentemente de comportamento. E ele se vê ali. Vê toda a merda que poderá vir a seguir. Também vê sua mãe ali, submissa, imóvel, inábil, destruída emocionalmente, mas escolhendo aquele homem abusivo em detrimento do filho ainda adolescente. É chocante! Até mesmo Bryce (que não tem como defender suas ações) é um garoto a quem não foi dado nenhum limite. Menino rico, melhor esportista da escola, os pais dele estão sempre viajando e nunca aparecem na série. No fundo, é tudo sobre privilégios e consequências desse machismo em nossa sociedade.


"Sonhe grande, eles dizem. Mire alto. Depois eles nos trancam por 12 anos e dizem onde sentar, quando fazer xixi e o que pensar. Então fazemos 18 anos e, mesmo que nunca tenhamos pensado sozinhos, temos que tomar a decisão mais importante de nossas vidas."
 
Os pais retratados na série não fazem ideia de quem são seus filhos. Ou são omissos ou superprotetores. E tanto um quanto outro comportamento podem produzir filhos imaturos, dependentes, com baixa autoestima, ansiosos, depressivos. Os diretores, orientadores e professores da escola não possuem qualquer empatia com os adolescentes. São mundos paralelos que não se encontram jamais. Todos (adultos e adolescentes) parecem ter que dar conta de seus problemas sozinhos. Não há interação possível. Não há liberdade. Não há diálogo. Nada! É assustador! E o mais triste de tudo isso é a série se passar num ambiente escolar. Escola essa que deveria educar meninos e meninas para a liberdade, mas só repetem clichês, sem nenhuma possibilidade de mudança. Porque no fundo não há interesse de mudança. Durante todos os episódios me peguei pensando numa frase do Paulo Freire que define a série pra mim e com ela encerro meu texto:

”Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é tornar-se opressor”.





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

05 abr/17

Big Little Lies - Crítica

postado por Mateus Barbassa



Confesso que comecei a assistir “Big Little Lies” por causa do elenco. Pensa numa série com Nicole Kidman, Laura Dern, Reese Witherspoon e Shailene Woodley... Mas a trama é tão fabulosa que do nada você se pega refém daquele universo, tentando entender e proteger aquelas personagens. Tudo acontece em dois planos narrativos: o presente e o passado. Quando a série começa sabemos que aconteceu um crime, que alguém morreu e que está ocorrendo uma investigação para se descobrir quem matou. Mas não sabemos nada. Nem mesmo quem morreu, como morreu, nem quem matou. NADA! No passado, acompanhamos a rotina de cinco mulheres até o acontecimento. São elas:

Madeline, casada com Ed, mãe de duas meninas (uma delas já adolescente com o primeiro marido Nathan). Ela é esquentada, gosta de se envolver nos rolos dos outros e extremamente amiga, daquelas que se pode contar pra tudo.
 
Celeste, casada com Perry, mãe de gêmeos. Aparentemente tem um casamento perfeito e invejado por todos. Abandonou a carreira de advogada para cuidar do marido e dos filhos.
 
Renata, casada, mãe de uma menina. É uma executiva de sucesso. E se culpa por não poder se dedicar à educação da filha como gostaria. É superprotetora e agressiva quando mexem com sua família.
 
Jane, cria um filho sozinha. É a única pobre das mulheres. Chega meio que fugida na cidade. Tem um passado nebuloso.
 
Bonnie, é casada com o ex-marido de Madeline. Mãe de uma menina. É a mais alternativa das mulheres.
 
Importante salientar que as crianças estão todas na mesma faixa de idade e estudam juntas na mesma escola e classe. E todo o rolo acontece no primeiro dia de aula quando a filha de Renata acusa o filho de Jane de machucá-la. Renata que não é muito querida pelas outras mães faz um escândalo e exige que o menino se desculpe publicamente. Ele se recusa e a balbúrdia está feita. As mães dos outros alunos se dividem e até mesmo uma petição pedindo a expulsão do garoto da escola é iniciada. A briga das crianças acaba por revelar ressentimentos escondidos daquelas mães e pouco a pouco vamos sabendo mais das pequenas grandes mentiras daquele local.
 
Na excelente abertura da série já dá pra sacar muita coisa. Somente as mães aparecem dirigindo os carros que irão levar seus filhos para a escola. Os pais são omissos e parecem não fazer questão de participar da vida escolar das crianças. O quebra-cabeça que a série nos propõe exige paciência. Tudo vai sendo desvelado aos poucos. E o que posso dizer aqui sem incorrer no risco de soltar spoilers é que é uma das séries mais incisivas sobre as variadas formas de violência contra as mulheres já vista. Incrível a habilidade dos roteiristas, diretores e elenco de contar essa história de maneira tão realista. O cenário é paradisíaco e as mansões dos personagens são cinematográficas. Mas tudo está ali com um propósito muito bem definido. Aquelas mansões são fachadas que escondem as fissuras dos personagens que as habitam. Tudo é um jogo de cena. E nada é o que parece. A hipocrisia reina e todos têm muito a esconder. O que faz com que tudo fique ainda mais emocionante de se acompanhar.


 
É preciso que se diga que é louvável que uma série se proponha a esmiuçar os meandros das relações amorosas e familiares com essa coragem e ousadia. É uma obra feminista como poucas vezes se viu. São 5 protagonistas femininas com seus dramas. São tramas que discutem abertamente as conseqüências nefastas da socialização machista e misógina dos homens. Nem mesmo as crianças estão isentas. É chocante! No domingo (02 de abril) a HBO levou ao ar o último capítulo e eu simplesmente fiquei sem ar o episódio inteiro. Vou repetir: É chocante!
 
Sei que vou chover no molhado, mas o elenco inteiro dá um show. Mas o destaque absoluto é para a composição da atriz Nicole Kidman. Que performance!!!! É impossível ficar indiferente a sua história. A trilha sonora é uma personagem do enredo. É maravilhosa! Olha, vou parar por aqui, do contrário vou ficar elogiando, elogiando, elogiando. Se você ainda não viu, pare tudo que você está fazendo e veja! São apenas 7 episódios de 50 minutos cada. Vale muito a pena! Queria poder escrever mais coisas, mas sinto que revelaria trechos importantes do enredo e não quero estragar a experiência de quem não viu. Agora, se por acaso, você já assistiu, peço por favor, vamos conversar sobre? HAHAHAHAHA





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

02 fev/17

Manchester à Beira-Mar - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa




“Meu coração estava quebrado. Será sempre quebrado. E eu sei que o seu também está quebrado. Mas eu não preciso carregar...”
 

“Manchester à Beira-Mar” é um filme anti-catártico, minimalista e frio sobre um tema que é conhecido por todos nós: como continuar vivendo diante da perda de alguém que você ama? Daí que a obra resulta num quase tratado psicanalítico sobre a dor. É um filme angustiante. Lee, personagem principal, interpretado com uma contenção assustadora pelo ator Casey Afleck, é um homem traumatizado por perdas que se encontra bloqueado para a vida. Mas quando o filme começa não sabemos exatamente os porquês. E assim ficamos por um bom tempo. O diretor Kenneth Lonergan só vai nos entregar o que aconteceu lá pelo meio do filme. O choque diante dos acontecimentos que fizeram com que esse personagem se isolasse do mundo é brutal. Tudo se encaixa nesse momento. Lee é então dominado pela pulsão de morte. A agressividade que demonstra em alguns momentos já é um indicativo desse comportamento. Sua pulsão de vida se encontra completamente paralisada naquele acontecimento trágico. É então que um outro acontecimento trágico colocará o personagem novamente na mesma cidade em que tudo aconteceu. Seu irmão morre e deixa um filho adolescente. Lee é indicado como tutor do garoto. Ele reluta, mas acaba aceitando a função por um tempo. Apesar de não investir em nenhuma mensagem edificante, Lee aos poucos vai restabelecendo pequenas ligações amorosas com o sobrinho e consigo mesmo. Isso é pulsão de vida!!!! Mas sua compulsão por ficar repetindo, relembrando e cutucando suas memórias ainda está muito presente. Fazendo com que mergulhe num estado depressivo. O que mais assusta é perceber como o tempo o modificou. De um homem amoroso, alegre e expansivo para um zumbi. Sua tendência de percorrer o mesmo caminho fará com que ele tente fugir o tempo todo da missão delegada pelo irmão. Além disso, vemos também certa resistência por parte dele de ressignificar a relação com o sobrinho. Como disse, é uma obra bastante psicanalítica, o conceito de recalque serve bastante aqui também. Lee é um homem atormentado por suas lembranças que tenta de todas as maneiras bloquear que suas memórias venham à tona, mas que obtém um prazer mórbido de relembrar o acontecimento trágico. E tome culpa, silêncio e solidão. Freud no artigo "Recordar, repetir e elaborar" escreve que toda repetição é uma necessidade de resistência, mas que o recalcado nunca renuncia à busca da satisfação do desejo. Sim. Lee é um masoquista.
 
“Pois é possível reconhecer, na mente inconsciente, a predominância de uma "compulsão à repetição", procedente dos impulsos instituais [pulsionais] e provavelmente inerente à própria natureza dos instintos [pulsões] – uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio do prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu caráter demoníaco.”


 
No entanto, tem algo nesse personagem que nos mostra exatamente o oposto. “Toda coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser”. A frase de Espinosa também nos mostra uma possibilidade que passa pela cabeça do personagem. De uma forma bastante torta, ele busca o encontro. E o filme é sobre isso. Sobre as tentativas de um possível encontro entre humanos. Estamos todos machucados. E aquele que ainda não está, um dia estará. Esse componente humano nos une. Mas alguns temem aquilo que há de mais essencial em nós. Outros enfrentam, mesmo que às lágrimas e titubeante como a personagem da ex-mulher de Lee vivida com brilhantismo arrebatador por Michelle Williams. A frase que coloquei no início desse texto é dito por ela num dos momentos mais intensos do filme e de forma bastante explícita mostra essas duas maneiras de lidar com a dor. Ela verbaliza sua dor, enquanto Lee foge. Ela quer almoçar com ele, mas ele foge da possibilidade do encontro.



”Você não pode simplesmente morrer. Querido, eu quero que você seja feliz. Eu te vejo andando por aqui e eu só quero dizer (...) Eu só quero lhe dizer que eu estava errada. Eu quero dizer isso. Eu posso fazer isso.”
 
Talvez um dos aspectos mais belos de “Manchester à Beira-Mar” venha exatamente do confronto entre essas duas forças e de ausência da necessidade usual de um final feliz. Quando perguntaram ao diretor por que o filme não tinha um final feliz óbvio, ele deu a seguinte declaração:

“Essas coisas acontecem a algumas pessoas, e elas não conseguem superá-las, e eu acho que essas pessoas também merecem um filme”.

É isso! Exatamente isso! E o mais assombroso de tudo é perceber como a morte do irmão e seu plano de colocar Lee como tutor de Patrick o trazem de volta à vida. Belíssimo filme!





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

16 jan/17

Mate-me por favor - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa




“Mate-me por favor”
é um filme estranho. Cru. Cruel. Incômodo. Extremamente simbólico e ao mesmo tempo realista. É uma confusão de gêneros, não se prendendo a nenhum deles. É uma obra provocativa, delirante, rodrigueana. Que retrata o universo adolescente e sua sexualidade sem rosto, despidos dos maneirismos ficcionais tão característicos. É uma obra assumidamente pós-dramática onde cada aspecto do filme é importante. Luz e som aqui ganham dimensão de personagens quase principais. É um cinema climático sim, mas que assume isso de uma maneira a la David Lynch. O filme toca em temas absurdamente contemporâneos e é assustador constatar que estamos todos imersos nesse contexto, nesse rescaldo cultural, midiático e político. Em que nos transformamos todos em zumbis, condenados à uma indiferença brutal. Ao contrário de alguns críticos que acusam o filme de ser excessivamente formalista, acredito que por trás de todas as cenas o que está presente é uma crítica bastante contundente ao desaparecimento de algo que não sabemos direito o que é. Parece que todos nós perdemos algo que já não lembramos mais o que é. Não somente no âmbito individual, mas no social também. Há um desespero por achar algo que dê algum significado para esse vazio todo que nada nem ninguém parece ser capaz de aplacar. E é aqui que o filme faz sua crítica mais contundente. Estamos nos transformando todos em psicopatas. Uma legião de psicopatas. Incapazes de sentir qualquer coisa, mas buscando um êxtase delirante prometido que não vem, não virá, nunca. Como muito bem definiu Baudrillard, já não estamos mais na crise, mas em plena catástrofe. Não estamos mais na falta, mas na saturação.



”Tantas coisas são produzidas e acumuladas, que nunca mais terão tempo de servir. (...) Tantas mensagens e sinais são produzidos e difundidos, que nunca mais terão tempo de ser lidos. Sorte nossa! Porque a ínfima parte que absorvemos já nos põe em estado de eletrocução permamente.”

Isso tudo Baudrillard escreve em 1990. Pasmem!!!!! Fico imaginando o que ele escreveria vendo-nos absorvidos pelos celulares, propagando notícias que nem sequer lemos no facebook, ou perdidos no meio de tantas opções nos canais de televisão e serviços de streaming, pulando de relacionamento em relacionamento na esperança de achar alguém que valha a pena depositarmos todas as nossas fichas.



”Todas essas memórias, todos esses arquivos, toda essa documentação que não consegue dar à luz uma ideia; toda essa documentação, programas, decisões que não conseguem dar à luz um fato...”

Esse é o estado que vivem aquelas personagens. Há desencanto, desalento, uma espécie peculiar de desespero nos gestos de cada uma delas. Estão presas em suas liberdades que não sabem usar. O funk, o sexo, a igreja, evangélica e até mesmo os poemas de Augusto dos Anjos ajudam a compor esse ambiente fatalista.




Tudo é exacerbado. Propositalmente saturado. Compondo assim um retrato (sur)real e cru(el) de uma nova espécie de violência “oriunda do paradoxo de uma sociedade permissiva e apaziguada”. Quem é a vítima? Quem é o algoz? O mais perturbador disso tudo é que já nem sabemos mais como enunciar isso. “Somos todos cúmplices na espera de um roteiro fatal, mesmo se ficamos emocionados ou transtornados quando ele se realiza”.  Belíssima e provocativa estreia de Anita Rocha Silveira.





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

11 jan/17

Animais Noturnos - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa




TEM SPOILER! SE VOCÊ NÃO VIU O FILME, NÃO LEIA!

Diferentemente de “Elle” que é um estudo de um personagem especifico vivido com imenso brilhantismo por Isabelle Huppert, “Animais Noturnos” é um filme que mostra a sociedade como ela é: misógina e vazia de sentido. Não é um filme sobre vingança. Esqueça! É a história de um cara que não aceitou levar o “não” de uma garota. Sim. Conhecemos tantas dessas histórias por aí... Mas vamos do começo! Susan é uma garota idealista que namora um jovem escritor sem eira nem beira. Sua mãe é a responsável por reproduzir todos os ensinamentos de uma sociedade machista. Fragilizando-a e fazendo com que ela titubeei em suas decisões. Essa é a socialização feminina. Você é frágil e depende de um homem forte ao seu lado que te sustente financeira e sentimentalmente. Susan nega, debate, fulmina a mãe com o olhar, mas o peso daquelas palavras passam a acompanhá-la como uma espécie de fantasmagoria. Ela já não enxerga no seu namorado mais as mesmas qualidades de outrora. Ela engravida e se dá conta de que aquele homem não conseguirá suprir suas necessidades de afeto e também de dinheiro. Ela conhece um carinha lindo e rico que sua mãe com certeza aprovaria. Termina o relacionamento com o antigo namorado jogando na cara dele todos os ensinamentos de sua mãe (leia-se sociedade machista patriarcal). Ela aborta o filho que esperava dele apoiada pelo novo namorado. Mas enquanto estão no estacionamento da clínica são flagrados pelo pai da criança. Dezenove anos se passam... Ela está num casamento infeliz com o bonitão e rico namorado de adolescência. Transformou-se numa marchand renomada, mas que não vê muito sentido nas coisas. Entope-se de remédios pra dormir e é traída na cara dura. Um belo dia... Ela recebe uma encomenda em casa. É o manuscrito de um livro escrito por seu antigo namorado. O livro se chama “Animais Noturnos” e é dedicado a ela. Mais tarde saberemos que o nome que dá título ao livro era o apelido que ele a chamava por ela ter dificuldades para dormir. Em linhas gerais, o livro conta a história de uma família feliz (mamãe, papai e filhinha adolescente) que estão indo viajar para o Texas e que são importunados por uma gangue na estrada. Eles batem no pai. Sequestram, estupram e matam a mãe e a filha. Tony sobrevive e busca justiça e encontra no delegado local, que está prester a morrer de câncer, muito mais que isso: vingança. O tempo passa. O delegado consegue prender os responsáveis pelos crimes, mas são soltos porque não se tem provas suficientes para incriminá-los. O delegado propõe um plano e o tal homem injustiçado aceita. Eles perseguem os criminosos e levam-nos para um lugar distante. O delegado coloca uma arma na mão do pai de família que não consegue atirar neles. Os bandidos fogem. Na perseguição, o delegado mata um dos bandidos e depois se separam. Tony recebe uma arma e passa a procurar o algoz de sua família. Acha. Diante dele, vacila mais uma vez e é golpeado, mas antes consegue atirar duas vezes no bandido. Horas depois, acorda bastante ferido e morre. Sua morte não fica evidente se aconteceu por descuido ou suicídio. Fim do Livro. Susan fica absolutamente fascinada e aterrorizada pelo que lê. Tanto que escreve um email com loas para o ex, inclusive chamando-o para um encontro. Ele aceita. Ela se arruma toda. Ela espera durante horas por ele que não aparece. Fim do filme!



Desculpe o resumo, mas era necessário para mostrar o quanto as socializações que recebemos desde a infância por mais que não nos damos conta acabam por dominar nossas decisões. De Edward é exigido que ele seja forte, que sustente e proteja sua família. De Susan, que seja frágil e submissa ao marido. Eles simplesmente não se encaixam nesses esteriótipos de gênero. E sofrem com as pressões necessárias para que se tornem aquilo que se espera deles. Dezenove anos depois, a formatação está pronta. Ele culpa-a por todo o mal. Ela se ressente e aceita essa culpa. Ele se torna forte e ela se fragiliza e busca nele aquilo que acredita ter perdido. Ele nega. Ela fica sozinha. Sim, porque agora ele aprendeu a lição e matou aquele antigo homem com o livro. E todos sabemos que a socialização masculina se baseia na dominação e nos privilégios em relação às mulheres. Preste atenção nos homens do filme! Olhe o atual marido de Susan e o da amiga dela que aparece numa festa. A todo o momento, Susan parece receber um ensinamento de como se sujeitar ao mundo como ele é e nunca questionar. Essa é a socialização feminina. Agora olhe as mulheres do filme! São escravas da estética e aprendem que precisar se adequar aos padrões para serem aceitas e ou amadas. Simone de Beauvoir definiu muito bem o processo civilizatório de uma mulher:



“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”.
 
O filme é assombroso em mostrar o peso dessas socializações na vida prática de homens e mulheres, inclusive tem uma cena assustadora de uma colega que trabalha com Susan que acabou de ter uma filha e que para se sentir mais próxima da criança e poder vigiar a babá, instala um aparelho onde ela pode acompanhar tudo o que acontece a distância. Susan dá uma olhada no celular da moça e vê algo ali que nos faz dar um pulo de medo. É um aviso! Um doloroso aviso às mulheres!





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema
 

05 jan/17

A Bruta Flor do Querer - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa






“Quem nunca projetou todos os sonhos numa pessoa que nem conhece. Em outras palavras, quem nunca usou essa perigosa droga chamada amor platônico”.

 
 
“A Bruta Flor do Querer” é um filme contemporâneo. Fala sobre nós. Sobre a juventude que Baudrillard definiria como pós-orgia. Onde tudo aparentemente está liberado mas ainda encontramo-nos todos perdidos diante da tal pergunta: O que fazer com esse tédio monumental que vem seguido da orgia? No filme cujo diretores escreveram o roteiro, bolaram a iluminação e a excelente trilha sonora e ainda atuaram como protagonistas, vemos dois amigos diante da realidade do mundo atual. Eles até tinham sonhos, mas a urgência dos dias e a necessidade de sobrevivência cobram seu preço. Diego acabou de concluir a faculdade de cinema, já fez alguns curtas, mas se vê tendo que gravar casamentos para ganhar algum dinheiro. Sua vida pessoal também vai de mal a pior. Acalenta uma paixão platônica por uma menina que trabalha no sebo que ele freqüenta, mas não tem ideia de como trocar qualquer palavra com ela. Seu melhor amigo é outro que parece não ter grandes perspectivas. Ouve seus desabafos amorosos, aconselha às vezes, mas nada além disso. Os dois usam muita droga para aplacar alguma melancolia mal resolvida e vivem atrás de pegar mulher. Seus diálogos são rasos, quase sem nenhuma eloquência, soando como monólogos ou fluxo de (in)consciência. De forma bastante contundente, o que nos é apresentado é um registro do estado das coisas enquanto elas acontecem. É um filme duro, cru, obsessivo, fétido, pestilento. Diego é atormentado pelo fantasma da mulher independente que não lhe dá moral e personifica todas as suas frustrações amorosas e seus medos em Diana. Em seu delírio, chega a enxergá-la como sua oponente numa luta de boxe. Ela o massacra. Sua socialização machista não permite que ele a enxergue em sua totalidade. Ele precisa idealizá-la para sobreviver. Ela é mais um de seus vícios. Ele vive num estado de simulação em que já não é mais possível distinguir o que é real do que é não é. Assim como nós (espectadores) também não conseguimos decifrar direito o que é ficção e o que é documental no filme. Essa hibridez é fascinante e corrobora para o entendimento de que estamos no território do simulacro.



”Quando as coisas, os signos, as ações são libertadas de sua ideia, de seu conceito, de sua essência, de seu valor, de sua referência, de sua origem e de sua finalidade, entram então numa auto-reprodução ao infinito. As coisas continuam a funcionar ao passo que a ideia delas já desapareceu há muito. Continuam a funcionar numa indiferença total a seu próprio conteúdo. E o paradoxo é que elas funcionam melhor ainda”.

Recorro novamente a Baudrillard para tentar dar conta da urgência que a obra me causou. “Qualquer coisa que perca a própria ideia é como o homem que perdeu a sombra – cai num delírio em que se perde”. Mas acho que o que o filme retrata é algo ainda pior. São homens que se transformaram em suas próprias sombras. Fantasmas de um mundo perdido. Que até tentam enxergar algum significado nisso tudo, mas falham miseravelmente. Impossível não fazer uma leitura sobre os sexos e gêneros diante do que é apontado na obra. Os dois amigos e todos os outros homens retratados no filme possuem aquela inabilidade afetiva típica. Parecem não enxergar nada nem ninguém diante dos seus olhos. Vêem aquilo que querem ver e só. É assustador! Falta-lhes empatia. Um olhar mais atento pra si próprios e para os outros. Mas estão cegos demais, anestesiados demais para tal intento.



Já as mulheres parecem não aceitar mais esse tipo infantilizado de homem, a não ser para uma transa ou uma ficada na balada. Diana não quer nada com Diego. O amigo foi traído e abandonado pela namorada. E assim vai. Estranhos que eventualmente podem até trocar saliva e porra, mas que acaba ali. Não tem nada além de uma sexualidade sem nome ou rosto. O problema é que todos (homens e mulheres) fomos socializados para essa necessidade de ter alguém e esse vazio provoca ainda mais sofrimento. Ficamos então nesse estado em que as coisas parecem não possuir início nem fim, apenas meio. Algo que nunca começa nem termina direito, mas que também impede que  qualquer outra coisa surja. Repito, é assustador!





Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema

09 dez/16

Heartstone - Crítica Filme

postado por Mateus Barbassa



A cena inicial do filme “Heartstone” é sintomática. Estamos na Islândia. Alguns garotos estão esperando para pescar peixes. Um deles avista um cardume. Todos pegam suas iscas. Eles pescam alguns peixes. São extremamente violentos para matá-los. De repente, um deles pesca um peixe-pedra. Um bicho de aparência horrível. Eles chutam, pisam, esmagam o animal. É sobre isso que fala o filme. Sobre essa espécie de horror que o diferente causa. Essa socialização marcada por princípios estruturantes daquilo que se supõe ser masculino e heterossexual já faz parte do cotidiano daqueles garotos, mesmo que não tenham se dado conta. Eles estão sempre brigando, batendo em algo ou alguém, se bolinando, masturbando, se agredindo, se xingando. Mas a sociedade vigia meninos e meninas, exigindo capacidades, características e qualidades diferentes de ambos e produzem medo distintos também. Se os meninos temem ser vistos como gays, as meninas sofrem com o estigma de putas. É tudo sobre sexo. É tudo sobre não ser mais visto como digno de respeito ou admiração. Esse cenário padronizado de sexualidade produz muito sofrimento, já que somos máquinas desejantes e ficamos divididos entre seguir nossos desejos ou se encaixar naquilo que a sociedade espera de todos. Um rumor de que o pai de alguém deu em cima de um outro homem, a dificuldade de lidar com os parceiros sexuais da mãe ainda jovem, que é taxada de puta pelos moradores e próprios filhos, cumprem o papel de alertar os mais novos. Quem ousar sair dos papéis previamente definidos (no momento em que o médico disse o sexo do bebê) sofrerá as conseqüências. O filosófo e pensador queer Paul Beatriz Preciado escreveu que “se você não é heterossexual, é a morte que te espera”. Essas normas regulamentam o desejo de todos e são passados de geração em geração, com o auxílio dos filmes, novelas, músicas, escolas, igrejas, etc, etc... Mas o que fazer com o desejo?



Thor e Christian são amigos e estão naquela fase de se descobrirem sexualmente. Dão em cima de duas garotas e até começam a ter algum envolvimento com elas. Mas um deles se descobrirá apaixonado pelo amigo. Como lidar com a situação? Existem muitos filmes com essa temática, mas esse se destaca pela maneira com que mostra essa descoberta e suas conseqüências. É um filme poético, de delicadas metáforas. A cena final (que não revelarei aqui) se casa perfeitamente com a do início e é uma das mais fortes e belas que já vi. “Heartstone” se transforma assim num filme de resistência, num grito desesperado debaixo d’água de um garoto que se descobre diferente dos demais. É um final interessante que se coaduna com o pensamento da filósofa Judith Butler: “As normas nos dizem o que devemos fazer para ser um homem ou uma mulher. Nós devemos a todo instante negociar com elas. Alguns de nós as adoram e as encarnam apaixonadamente. Outros a rejeitam. Alguns detestam mas se conformam. Outros brincam de ambivalência... Eu me interesso pela distância entre as normas e as diferentes formas de se responder a ela.”



Mateus Barbassa é ator, diretor teatral e crítico de cinema